E o mundo não se acabou

Diziam por aí que um maluco americano predisse que o mundo ia acabar sábado, 21 de maio de 2011. Lembro que quando eu tinha uns 10 anos tinha uma previsão do Nostradamus de que o mundo ia acabar um certo dia lá, mas minha mãe me fez ir pra escola do mesmo jeito.

Nesse último dia do mundo eu não tive sonhos premonitórios, e sim acordei do seu lado as onze da manhã com a gata enrolada no meio das minhas pernas. Isso é um baita dum avanço, levando em conta que quando me conheceu a moça temperamental fazia questão de sair do quarto com rabo empinado assim que eu entrava, e passava mais dois dias sem botar as patinhas no quarto depois de eu ter ido embora. Isso já tem um tempo já.

Não me lembro direito se você falou alguma besteira quando acordamos ou como foi o almoço ou se passamos a tarde eu no meu computador fazendo alguma coisa e você no seu fazendo outra coisa ou não. Mas lembro que em algum momento da tarde você entrou no quarto com uma xícara de café e reclamando de alguma coisa da vida pra mim e pras paredes e eu só consegui sentir o quanto te amava. Simples assim, só um sorriso no meu rosto e um sentimento de estar no lugar certo, com a pessoa certa e para quem eu sempre pertenceria.

Ficamos antes de dormir deitados nos braços um do outro, só quietos, ouvindo o silêncio. Você gosta do silêncio. E eu encostava a cabeça no seu ombro e ouvia o coração pulsar e as veias transportarem sangue debaixo da sua pele quente.

O mundo não acabou. Mas bem que poderia.

Sonhos de uma madrugada fria

Eu nasci cega. Eu vivi cega. Eu morri cega.

Não me incomodava viver em meus pensamentos sem os estímulos visuais, pois nunca os tive, e mesmo que entendesse o conceito do que era esta visão que todos tinham e que diziam que me faltava, era uma compreensão teórica e vazia. Como, por exemplo, se eu tentar te explicar uma cor nova. Não uma mistura do vermelho, amarelo e azul e nem uma nuance de qualquer outra cor secundária ou terciária. Uma cor totalmente nova. Que não se parece com nenhuma outra cor reconhecida pelos seus olhos. Você consegue entender o conceito, mas nunca vai conseguir imaginar o que estou querendo dizer. E, também, não vai sentir a menor falta. Continue reading

Enquanto você dormia

Porque eu tenho o costume de acordar cedo, já pelas oito e meia da manhã meu organismo silenciosamente se rebela contra o fato de ser domingo e de eu querer continuar na cama até pelo menos meio dia e meia. E entre um sonho interrompido e o trocar de lado pra cair num outro espasmo curto de imaginação, meus olhos ainda sonolentos te vêem assim de lado com a boca meio aberta, um rosto tão sério que é tão diferente do seu normal e ao mesmo tempo tão de criança, que é tão você e ao mesmo tempo não é.

E eu fico me perguntando se todo mundo quando dorme fica com um ar infantil no rosto, ou se isso são só coisas que eu vejo por estar com sono e por te amar tanto. Ver você dormindo assim com tanta tranqüilidade faz com que algo dentro de mim me faça acreditar você só está dormindo tão bem porque sabe que a qualquer momento vai poder esticar o braço e me puxar mais pra perto, e nossas peles vão se tocar e nossos cheiros vão se misturar como se misturam nossos planos, sonhos e desejos. Mais tarde, quando eu adormecer sem você está noite, com alguma sorte ainda vai ter algum resto do seu cheiro no travesseiro. E isso não me serviria de nada se não fosse pra lembrar da cena de agora, seus ombros recortados contra a parede branca e iluminados pela luz que insiste em entrar filtrada pela cortina. Continue reading

Romeu

(um presente meu pro Will)

Meu nome não é Julieta. Chamo-me Gabriela. E, na verdade, não tenho nada em comum com a clássica personagem de Shakespeare, além do fato de, com ela, ter me apaixonado por um Romeu.

Os pais dele sempre foram românticos, amantes da literatura. Ele também. Sempre escreveu contos, romances, chegava a arriscar uns poemas vez ou outra – só quando a coisa fica feia, dizia. Já eu sempre preferi os números, as fórmulas e equações. Passei pra faculdade pública, no curso de Física, com 18 anos. Com 23 estava no Mestrado. Uma pesquisadora e cientista, desde cedo. Enquanto ele, romântico, evasivo, já havia começado duas faculdades e passado seis meses viajando pelo litoral do Brasil, antes que eu terminasse a minha primeira graduação. Todo mundo dizia que nunca ia dar certo. Eu sabia que nunca ia dar certo. Antes do nosso primeiro beijo, eu perguntei a ele:

– Você acha que existe alguma chance disso dar certo?

E a resposta eu já sabia, claro, vinda da boca dele:

– Não vai, mas vai ser divertidíssimo. Continue reading

Seja gentil

age is no crime

but the shame
of a deliberately
wasted
life

among so many
deliberately
wasted
lives

is.

– Charles Bukowski

Você pensa que a dor de morrer é grande, não é? Ah, existem tantas dores maiores. Existem tantos prazeres menores. Continue reading

A última canção de ninar

E então que essa garota, no auge dos seus catorze anos, num dia que pra ela não foi tão belo assim, perdeu seu brinco preferido. Não os dois, o que teria sido ainda mais triste mas talvez mais aceitável, mas apenas um. E ela não sabia se tinha sido culpa da empregada, se havia sido a própria bagunça do seu quarto ou se o gato num dia de arrelia jogara o pobre brinco pra detrás do armário, tudo que ela sabia era que a impossibilidade, aquele dia, estava na forma de um único brinco prateado. Não que o brinco fosse realmente de prata, ou que fosse caro ou que tivesse uma história muito importante – era só um brinco desses de barraca de camelô, mas que ela adorava. E que, agora, não usaria mais.

Ela, como eu disse, era apenas uma garota, mas mesmo as garotas de quatorze anos já têm algo dentro de si que as faz completamente mulheres, assim como mesmo as mulheres mais sérias têm dentro de si uma garotinha que volta eventualmente numa risada no parque ou enquanto elas tomam um milk-shake. E a mulher dentro da garota a impediu de se desfazer do brinco viúvo. Da mesma forma que a impediu de se desfazer, mais tarde, do colar com pingente de estrela ganho do namorado e que arrebentou o cordão. Ou daquele prendedor de cabelo que ela pegou emprestado da melhor amiga da sétima série e nunca mais devolveu. Tudo isso e muitos outros pequenos souvenires, guardados dentro de uma caixa metálica de colomba pascal roubada antes da mãe jogar fora. Continue reading

Eu que nunca aprendi a dizer adeus

E agora, você está indo embora. E eu tenho que te abraçar sem chorar, voltar pra casa sem olhar pra trás e sair com nossos amigos como se não houvesse esse pedaço vazio de um metro e setenta andando ao meu lado.

Eu não desejaria outra coisa, entretanto. É seu sonho, sua vida, e eu jamais seria capaz de fazer algo que não fosse te apoiar pra ir em busca dos seus desejos, assim como você sempre fez pra mim. Fomos assim desde o começo e assim seríamos no final. Você me ajudou a planejar, economizar nos jantares, escolher a vista e decorar os quartos do meu apartamento com varanda e eu te ajudei a organizar os documentos, ajeitar os papéis, traduzir as cartas de recomendação e escolher as roupas de frio pra você ir fazer seu mestrado na Inglaterra. Este sempre foi o certo nas nossas cabeças tão diferentes do resto do mundo, mas tão iguais entre nós. Nunca achei que encontraria alguém assim igual. Deveríamos viver nossas vidas e aproveitar ao máximo enquanto os nossos caminhos estivessem juntos, e vivemos e aproveitamos. Mas uma parte de mim, a parte de mim que nunca soube lidar com partidas e perdas, mesmo sabendo que a vida é feita delas, ainda tinha uma vaga esperança de que no fim das contas nossos caminhos acabassem sendo os mesmos por todo o tempo.

Não foram. Continue reading