Vampirinha

December 11, 2008

Os dentinhos dela batendo nos meus, é a primeira coisa que eu vejo. Não lembro como começou, quem agarrou quem, só sei que de repente estávamos nos beijando e os dentinhos dela batiam nos meus, e ela ria. Pulou pra cima de mim no sofá, e eu tive meu último ato consciente da noite, disse que não podíamos na sala. Ela quis me levar pro quarto. Apontei pro namorado sentado no computador a menos de cinco metros de distância, que tinha acabado de se virar e olhar pra nós. Ela levantou, foi com ele pro quarto, voltou menos de dois minutos depois. Ele saiu. Ela me puxou pela mão. Pra cama de casal.

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A última volta

October 5, 2008

- Não quero entrar.

Não queria.

- Eu me conheço, não vai dar certo, não quero entrar.

Mas aqueles outros olhos. Aqueles, que não prometiam nada. Não declaravam nada. E tentavam não pedir nada. Mas no fundo daquele nada, ela sentia um resto pequeno, ínfimo, de vontade. De um pedido, mais desesperado por não querer ser um pedido. Quando olhava para cima, via uma promessa de beleza, céu azul e risadas que queria desesperadamente seguir. Olhando para baixo, via o que mais temia – de novo, talvez pior. E gritava pro alto:

- Não tenho medo!!

Tinha, um pouco. Tinha medo de si. Dos olhos, era só medo do desconhecido que eles representavam, da falta de promessas das quais precisava tanto.

E eles lá de novo. Estavam quase partindo, conformados como quem diz “não se preocupe, é o que todos fazem”. Foi aquilo que decidiu. Não queria o tratamento que todos davam, não queria agir como todos os outros. Embarcou.

A viagem começou devagar, naquela montanha-russsa maluca. Começou a subir, o frio no estomago começou a aumentar. Uma vez lá em cima, virou pro lado e viu aquele par de olhos, que tinham dentro deles algo inimaginável que só era visível naquela luz. Mais além viu o mundo. Viu tudo, quis tudo e teve tudo. E quando a descida começou, não houveram gritos. Sabia que não adiantava mais. Não adiantava porque, agora, seu maior temor era real de novo. Havia visto a beleza que ninguém mais via, e sabia que por ela, mesmo passando pelas voltas mais baixas, seguiria até o inferno se fosse necessário. E foi.

Conheci Alicia por acaso, por um amigo em comum numa festa qualquer. Eu redator e ela cineasta. Eu um cara que sempre teve azar com as mulheres, e ela com aquele jeito de quem passou e vai passar a vida toda com uma fila de homens em seu encalço, e sem nem ligar pra isso.

Viramos colegas, porque tudo que eu me atrevia a desejar dela era amizade. Uma noite tínhamos ido a um barzinho perto da minha casa com amigos, e um desses amigos ficou bêbado de dar dó. O cara estava sentado do lado dela. Na hora que a gorfada veio, adivinha?

- Puta que pariu, Reinaldo! Minha saia!!!

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Essa moça tá diferente…

September 11, 2008

Agora era assim. Ela andando por aí, dona do nariz, nariz esse que já tinha até furo de piercing, de bolsa a tiracolo – cadê a mochila? -, tatuagem, pescoço à mostra e uma auto-confiança de fazer virarem cabeças na rua. Ela ia, sorrindo sozinha, ninguém sabia de quê mas todo mundo olhava. Olhavam. E imaginavam. Ela, minha menina.

Não me lembro bem qual dia foi o último em que a vi, nem o último assunto do qual falamos. Mas me lembro de quando ela era criança e medrosa, e só ia nos brinquedos que giraram de ponta cabeça ou caíam ou rodavam rápido demais se eu estivesse ao lado. Ou da vez em que seu cabelo, que era enorme e ondulado, difícil de lidar, ficou todo enrolado e não havia santo que penteasse. Ela passou mais de uma hora sentada numa cadeirinha e eu passei mais de uma hora em pé, desembaraçando aquela massa de cabelo enquanto fazia sol lá fora e as crianças todas brincavam. Quando terminou, ela saiu com o couro cabeludo vermelho feito tomate, e eu saí com as mãos duras e as pernas doendo. Me disseram uma vez que uma das personificações de carinho é pentear o cabelo de alguém. É.

Quando ela foi crescendo eu detesto admitir, mas morria de ciúmes. Os irmãos, se deixasse, vinham me visitar todo final de semana, mas ela não. “Tenho que fazer um trabalho da escola”. Ou então, “vamos na casa do Fulano ver um filme”, ou nem me falava nada, eu só descobria quando passava na casa deles pra buscá-los e ela já havia saído. Parecia desprezo, e isso dói no coração de um pai, sabe? E eu, além de tudo, virei pai muito cedo, e lidar com crianças sempre foi fácil, mas com mini-adultos a coisa complica… então o que me restava fazer era agir como se nada estivesse acontecendo, como se ela nem fizesse falta. Birra mesmo, pô, vou fazer o que? Mendigar atenção pruma pirralha de treze anos? Nas poucas vezes que ela aparecia, eu brincava sobre ela estar distante, pra ver se ela se tocava e percebia a falta que fazia. Como dá pra perceber, acho que não deu muito certo.

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A ponte de Roosterspur

August 14, 2008

Ele foi meu primeiro amor, e até hoje é minha maior paixão, mesmo que nunca tenhamos nos beijado. Ou, talvez, exatamente por isso. O fato é que eu nunca o esqueci, e ele foi a comparação com todos os outros caras com os quais me envolvi, mesmo que as coisas tenham acabado do jeito estranho que acabaram.
Era uma noite de verão e ouvíamos discos de punk rock em minha casa. Quando foi ficamos tarde e começamos a pensar que era hora de ir embora, era um ir sem obrigação, sem querer se despedir das conversas e risadas… fomos até a casa dele, voltamos à minha, e com uma condescendência mútua demos as costas e simplesmente saímos por ai, esperando que nossas mãos esbarrassem sem querer no caminho e que o dia não amanhecesse nunca.
Ao menos, era o que eu queria.

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Boêmio

- Mas por que você está sempre solteiro?

- Sabe o que acontece? Vamos supor que eu conheça hoje uma mulher fantástica. Mas fantástica mesmo. Nós vamos nos conhecer, conversar, e eu vou voltar pra casa apaixonado. E no caminho de casa, vou ficar pensando em como seria se nós saíssemos sexta, e na sexta seguinte, e ela também se apaixonasse, e nós fossemos descobrindo aos poucos os defeitos e manias um do outro. E como seria nossa primeira noite juntos, quais seriam as taras dela, o cheiro do cabelo, o gosto da boca, o sorriso ao acordar. E imaginaria nossas brigas, os ciúmes meus e dela, as reconciliações, os medos, as decisões, talvez até filhos, gatos, cinemas de quarta e peças de teatro de sábado, e assim até que tudo acabe, por briga ou por idade. Passa pela minha cabeça tudo que pode acontecer.

- E qual é o problema?

- Sabe o que é? Eu odeio me repetir.

A Leoa

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E na esquina da cidade histórica há um poeta que veio de longe, de onde só há cinza e os prédios sobem até aonde alcança a vista, que agora vê embasbacado a quantidade de cores em cada janela.

No meio de tantas cores, é o negro que chama a atenção ao longe: o negro de um vestido despontando pelas calçadas. Os cabelos também são negros, só os olhos que são azuis, mas tão azuis que deixariam sem graça o céu da cidade do poeta. Quanto ela passa pelo poeta, os olhares se cruzam meio sem jeito, mas nenhum dos dois abaixa os olhos. Ela pensa que nunca encontrou com alguém que não baixasse os olhos, e ele pensa que nunca cruzou com alguém que olhasse nos olhos. Ele conta exatos dez segundos e vira-se atrás dela. Read the rest of this entry »

Antônio e Antonieta. Fora o nome, eles não tinham mais nenhuma semelhança, ou assim o consideravam. Se conheceram durante um almoço de domingo no qual ela teve que acompanhar a irmã caçula, que ia passar a tarde na casa do então namorado. Ignorando os protestos pelo domingo perdido, a mãe simplesmente disse “você vai e pronto”, então ela foi e pronto. No fim das contas, o dia acabou sendo agradável: enquanto ela fingia que não estava vendo os risinhos e abracinhos da irmã e do cunhado, descobriu que a comida era estupenda e a conversa era boa. Tão boa que ela passou a ir mais vezes, e continuou a ir mesmo quando o namoro da irmã desandou. Tanto a irmã chorava e reclamava que ela parou de ir aos domingos, mas durante a semana de manhã, quando a irmã estava na escola, ela costumava passar pra dar um oi, acabava ficando pro café, e tanto papo ia e vinha que ela acabava só saindo dali na hora da sesta. Read the rest of this entry »

Não que seja um fato exatamente novo, mas outro dia conheci um poeta pela rua. Acabo sempre atraindo esses tipos. Não me arrisco a escrever duas linhas em verso, mas acho que eles acabam me reconhecendo – a gente sempre se reconhece. Este chegou pra mim com um bolo de folhetos na mão, cada folheto com seu punhado de poemas. Me contou sua história: tinha vindo de São Paulo, subindo pelo litoral, sempre com os folhetos e a poesia. Ubatuba, Maresias, Paraty, até chegar ao Rio de Janeiro. Terminou me oferecendo o folheto em troca de algumas moedas, se eu pudesse – se não pudesse, que ficasse com os poemas assim mesmo.

Dei uma nota e coloquei o folheto em algum canto esquecido da bolsa. No dia seguinte, a caminho do trabalho, me peguei pensando no poeta. Havia sido corajoso, ele. Deixando tudo para trás só para sair andando, curtindo o vendo e conversando com o mar. Imaginava até onde ele iria. Talvez subir até Porto Seguro e de lá voltar pra África, ou continuar andando até descobrir aonde começa o mundo. Invejei um pouco tanto desprendimento, eu que também morro de vontade de pegar uma mochila e sair por ai, mas só vou se tiver certeza de que vou voltar. Me achei covarde.

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Meu tempo de intervalo não é lá muito longo, mas pra mim costuma ser o suficiente. São só quinze minutos, mas é o tempo de as vezes passar no banco com a esperança de ver algum dinheiro na conta, de comprar uma barrinha de chocolate do camelô, e finalmente de visitar as barracas de livros em frente ao metrô.
Eu sou viciada nas barraquinhas de livros. Tem umas quatro, mas eu vou mesmo em duas: uma com todos os livros por um real, a outra com livros por três, dois por cinco. Não costumo ter dinheiro pra gastar em nada, mas me engano pensando que, afinal de contas, é pouco dinheiro, é a mesma coisa da barrinha de chocolate. É preciso dar uma garimpada no meio das pilhas desorganizadas de livros pra poder encontrar algo bom, quando se tem algo bom, e é isso que eu costumo fazer nos meus quinze minutos de intervalo. É isso que estou fazendo hoje.
A barraca do Domingos é a com a seção de livros por três, dois por cinco. Ele já me conhece por nome, se eu quiser posso até levar o livro pra pagar quando tiver. Estou lá dando uma olhadinha em tudo, até que aparece um livro na minha frente: grande, novo em folha, e que eu tenho certeza que meu ex-namorado iria amar. Não posso evitar esse pensamento, e no instante seguinte me dou uma bronca mental por ficar pensando nele. Enquanto me dou a bronca, pergunto pro Domingos quanto é o livro. Digo pra mim mesma que estou sendo idiota, ao mesmo tempo em que ouço que o livro mesmo é vinte e cinco, mas se eu quiser levar ele faz por vinte. Me chamo de estúpida quando tiro o dinheiro da carteira – os únicos vinte reais que eu tinha, que deveriam ser pro fim de semana todo! – e volto ao trabalho levando aquele livro debaixo do braço. Penso que um dia desses eu entrego pra ele. Read the rest of this entry »