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	<title>Lua Minguante</title>
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		<title>Lua Minguante</title>
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		<title>A última canção de ninar</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Sep 2009 16:15:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[E então que essa garota, no auge dos seus catorze anos, num dia que pra ela não foi tão belo assim, perdeu seu brinco preferido. Não os dois, o que teria sido ainda mais triste mas talvez mais aceitável, mas apenas um. E ela não sabia se tinha sido culpa da empregada, se havia sido [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=61&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>E então que essa garota, no auge dos seus catorze anos, num dia que pra ela não foi tão belo assim, perdeu seu brinco preferido. Não os dois, o que teria sido ainda mais triste mas talvez mais aceitável, mas apenas um. E ela não sabia se tinha sido culpa da empregada, se havia sido a própria bagunça do seu quarto ou se o gato num dia de arrelia jogara o pobre brinco pra detrás do armário, tudo que ela sabia era que a impossibilidade, aquele dia, estava na forma de um único brinco prateado. Não que o brinco fosse realmente de prata, ou que fosse caro ou que tivesse uma história muito importante – era só um brinco desses de barraca de camelô, mas que ela adorava. E que, agora, não usaria mais.</p>
<p>Ela, como eu disse, era apenas uma garota, mas mesmo as garotas de quatorze anos já têm algo dentro de si que as faz completamente mulheres, assim como mesmo as mulheres mais sérias têm dentro de si uma garotinha que volta eventualmente numa risada no parque ou enquanto elas tomam um milk-shake. E a mulher dentro da garota a impediu de se desfazer do brinco viúvo. Da mesma forma que a impediu de se desfazer, mais tarde, do colar com pingente de estrela ganho do namorado e que arrebentou o cordão. Ou daquele prendedor de cabelo que ela pegou emprestado da melhor amiga da sétima série e nunca mais devolveu. Tudo isso e muitos outros pequenos souvenires, guardados dentro de uma caixa metálica de colomba pascal roubada antes da mãe jogar fora.<span id="more-61"></span></p>
<p>Não sei dizer o quanto isso influenciou no fato da garota crescer com essa mania de querer tanto se agarrar a tudo que escapava por entre seus dedos como névoa, ou se ela a mulher dentro dela já tinha esse tipo de nostalgia em que se sente falta das coisas antes mesmo delas irem embora. O fato é que o tempo passou e ela, dia após dia, pessoa após pessoa, tentava em vão achar algo ou alguém em que pudesse se agarrar no seu mundo que parecia, as vezes, preso à vida por um fio tão leve. Mais de uma vez, ela se viu presa à realidade por uma névoa fraca e fina, e enxergou com olhar aguçado como seria fácil desfazer tudo com quem puxa um fio solto de tricô.</p>
<p>Até um dia em que, enquanto esperava uma amiga pro almoço, ela ao invés disso viu dobrar a esquina um outro homem que ela não sabia quem era, mas naquela hora, só pode pensar um &#8220;ah, merda&#8221;. E nem sabia o porquê desse pensamento. E quando a amiga chegou, esbaforida, ela parou no caminho pra conversar com o tal cara, e durante o almoço que agora era a três, a garota-agora-mulher descobriu que ele tinha feito o colégio junto da amiga e que não se viam há muito tempo, ela não se incomodava dele ter sido chamado pra almoçar também, né?</p>
<p>E muito tempo depois, mas muito tempo mesmo, quando ele finalmente foi embora, ela enterrou no quintal todas aquelas coisas guardadas na caixa na qual ela já não mexia há anos, depois do elo mais importante que a prendia ao mundo foi enterrado numa cova profunda e cinza. E diante do vazio, tudo que ecoava agora dentro do alumínio já meio enferrujado era apenas uma voz grave, profunda como que vindo de muito longe, envolvendo-a enquanto ela fechava seus olhos agora cobertos de rugas. Uma voz que, incessante, repetia e batia nas paredes e voltava, ecoando no cérebro que por sua vez fazia vibrarem os tímpanos ao som de um tom imaginário. Repetindo sempre, sempre, sempre a mesma frase. “Até mais, meu bem&#8230;”</p>
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		<title>Conto de um Natal de 2003</title>
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		<pubDate>Thu, 03 Sep 2009 21:11:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Pequena História]]></category>

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		<description><![CDATA[É natal. Véspera. Reunião de família, ceia, árvores, presentes.
Ela não pensa nos presentes. Toda vez que alguém tenta, em vão, atiçar sua curiosidade, ela responde baixinho: o que eu queria, já ganhei mesmo.
Ele anda atarefado. Ajuda a mãe na cozinha &#8211; gosta de cozinhar, quer ser chef algum dia &#8211; fazem bolinho de bacalhau, rabanada.
Ela [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=60&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>É natal. Véspera. Reunião de família, ceia, árvores, presentes.</p>
<p>Ela não pensa nos presentes. Toda vez que alguém tenta, em vão, atiçar sua curiosidade, ela responde baixinho: o que eu queria, já ganhei mesmo.</p>
<p>Ele anda atarefado. Ajuda a mãe na cozinha &#8211; gosta de cozinhar, quer ser chef algum dia &#8211; fazem bolinho de bacalhau, rabanada.</p>
<p>Ela ouve as tias falando, mas não escuta.</p>
<p>Ele coloca pratos demais na mesa, mas nem percebe.</p>
<p>Pensam um no outro. Não adianta tentar evitar, a idéia volta, insistente. Ela se pergunta se ele está pensando nela. Ele se pergunta se ela vai lembrar dele. No fundo, ambos sabem a resposta.</p>
<p>Ele se inquieta. Lembra dos beijos, de olhar nos olhos. Por dentro, a saudade o machuca, aperta, deixa sem fôlego. A mãe o chama na cozinha, ele volta à realidade.</p>
<p>Ela pensa em tudo que aconteceu, tão pouco tempo atrás. Pensa no rosto dele, nas músicas, nas coisas sussurradas ao ouvido. Sufoca-lhe a nostalgia, ela acorda e volta ao seu mundo.</p>
<p>Que idade eles tem, quantos anos? Quinze, dezesseis, vinte, cinqüenta, cinco mil? Nada disso importa agora.</p>
<p>Importa o momento, aquele momento mágico, em que os pensamentos se encontram e ambos tem uma súbita e clara certeza: certeza de que amam. E de que são amados.</p>
<p>Estão juntos, é isso que importa. Existem quilômetros os separando. Mas em algum lugar de sonhos, que a mente não alcança, eles estão juntos. E sabem disso.</p>
<p>E sorriem.</p>
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		<item>
		<title>Eu que nunca aprendi a dizer adeus</title>
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		<pubDate>Thu, 27 Aug 2009 18:43:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[E agora, você está indo embora. E eu tenho que te abraçar sem chorar, voltar pra casa sem olhar pra trás e sair com nossos amigos como se não houvesse esse pedaço vazio de um metro e setenta andando ao meu lado.
Eu não desejaria outra coisa, entretanto. É seu sonho, sua vida, e eu jamais [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=57&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>E agora, você está indo embora. E eu tenho que te abraçar sem chorar, voltar pra casa sem olhar pra trás e sair com nossos amigos como se não houvesse esse pedaço vazio de um metro e setenta andando ao meu lado.</p>
<p>Eu não desejaria outra coisa, entretanto. É seu sonho, sua vida, e eu jamais seria capaz de fazer algo que não fosse te apoiar pra ir em busca dos seus desejos, assim como você sempre fez pra mim. Fomos assim desde o começo e assim seríamos no final. Você me ajudou a planejar, economizar nos jantares, escolher a vista e decorar os quartos do meu apartamento com varanda e eu te ajudei a organizar os documentos, ajeitar os papéis, traduzir as cartas de recomendação e escolher as roupas de frio pra você ir fazer seu mestrado na Inglaterra. Este sempre foi o certo nas nossas cabeças tão diferentes do resto do mundo, mas tão iguais entre nós. Nunca achei que encontraria alguém assim igual. Deveríamos viver nossas vidas e aproveitar ao máximo enquanto os nossos caminhos estivessem juntos, e vivemos e aproveitamos. Mas uma parte de mim, a parte de mim que nunca soube lidar com partidas e perdas, mesmo sabendo que a vida é feita delas, ainda tinha uma vaga esperança de que no fim das contas nossos caminhos acabassem sendo os mesmos por todo o tempo.</p>
<p>Não foram.<span id="more-57"></span></p>
<p>E eu sei tão bem quanto você que você vai embora pra não voltar tão cedo. Afinal, como voltar a uma vida comum depois de se ter provado, mesmo que pelo espaço curto de alguns anos, o paraíso? Eu não teria coragem de lhe pedir e não gostaria que você aceitasse por mim se eu pedisse. No fim das contas, o nosso problema acaba sempre sendo o tempo. Essa obsessão ridícula com a eternidade. Como se dois anos fossem muita coisa, como se nossas vidas fossem muita coisa. Sabe qual é a idade do universo? Sabe qual é a idade da Terra? E o universo e a Terra um dia também vão sumir. E então do que vai ter adiantado seus dois anos sofrendo por aquele amor impossível ou os vinte que você deixou de viver porque resolveu casar cedo demais? Uma vida de cem anos vai significar tão pouco quanto uma de vinte e sete. Instantes de brilho no piscar de olhos de uma estrela, momentos jogados pelo acaso, e nada mais. Podemos apenas cuidar para que nosso brilho seja forte. Para que brilhemos o suficiente para nos reconhecermos e nos reencontrarmos em algum lugar em que o tempo não vá mais fazer diferença.</p>
<p>Por isso eu deixo você ir por mais que me doa, por mais que outro qualquer possa pensar que nunca chegamos a pertencer um ao outro. Mas é preciso aprender primeiro a pertencer completamente a si mesmo. Só assim é possível se dar de forma completa, com todo o significado que uma doação assim deve ter. Sem querer mais nada. Só por querer se dar. Achando apenas que vale a pena.</p>
<p>Eu sentirei muito a sua falta. Deixo o carro na garagem e vou passando por todos os cômodos, recolhendo os restos de você deixados pra trás. O meu chinelo que você costumava usar jogado de lado na varanda. Um fio de cabelo longo deixado no travesseiro que você usou pela última vez algumas horas atrás. O gato vem miando atrás de mim, o que você batizou, e eu não sei se ele tem noção de que você acabou de ir embora. E, na minha mesa de cabeceira, eu encontro um anel. O seu anel. É, fomos assim desde o começo, com nossos carinhos velados e olhares silenciosos que sempre querem dizer mais do que mostram. Talvez um dia nossos caminhos se cruzem de novo. Talvez um dia você volte. Talvez não. Enquanto isso, dormirei com uma corrente com seu anel no meu pescoço, esperando que você sonhe comigo. E que em algum lugar, nos nossos sonhos ou depois deles, possamos ficar juntos sem o peso do “pra sempre” em nossas costas.</p>
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		<title>Um brilho distante qualquer</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Aug 2009 08:34:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Amarrei a bicicleta num poste de luz em frente ao seu prédio, ainda surpreso pelo convite para subir. Você sempre foi o mais simpática possível comigo, e oficialmente não teria mesmo motivo para não ser. Na frente de todos, continuamos sendo os bons colegas que sempre fomos. Mas os todos nunca souberam como é quando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=54&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Amarrei a bicicleta num poste de luz em frente ao seu prédio, ainda surpreso pelo convite para subir. Você sempre foi o mais simpática possível comigo, e oficialmente não teria mesmo motivo para não ser. Na frente de todos, continuamos sendo os bons colegas que sempre fomos. Mas os todos nunca souberam como é quando a gente se encontra pelos corredores da faculdade, os dois namorando com outras pessoas, e a tensão que se forma entre nós,  que embrulha meu estômago e que eu sei que também revira o seu. Por isso eu achava que, dessa vez, você viria me entregar o que eu vim buscar, dar dois beijinhos na bochecha e tchau.<span id="more-54"></span></p>
<p>Nas últimas férias você fez sua viagem dos sonhos, Japão. E, como ganhar dinheiro em cima dos adolescentes j-rockers cariocas não é difícil (você sabe pois foi um deles), trouxe vários souvenires e cacarecos de bandas e da cultura, que foram colocados à venda num álbum do orkut. Eu vim comprar uma dessas lembranças pra mim e outra como presente para minha namorada, na minha esperança de que ela passe a gostar tanto dessas bandas quanto eu. Começamos a conversar amenidades, e a conversa corre como o medo de deixar o silêncio tomar conta. Você, como boa anfitriã, me acomoda na sala, e eu sabia que não iríamos conversar no seu quarto. Não, nunca mais no seu quarto. Por causa da última vez em que estive lá e nós não conseguimos controlar o silêncio, porque eu não confio em mim mesmo quando estou ao seu lado e você também não confia – nem em mim nem em você.</p>
<p>O telefone toca e você sai da sala um instante para atender seu namorado que quer conversar alguma coisa. Não tenho ciúmes dele, nem sei dizer se tenho inveja. Ele está com você e isso, bom, deveria fazer com que eu me sentisse mal, você poderia ter sido a mulher da minha vida. Se eu não tivesse sido tão indeciso, se eu não tivesse sido tão fiel a um namoro sem amor quando você estava livre. Se não houvesse o peso da minha infidelidade pairando no teto do quarto, como uma camada velha de fumaça. Será que, então, você teria ficado? Eu perdi você, mas não a agonia que você me causa. Agonia dos olhares rasteiros enquanto ninguém mais está vendo, o peso da impossibilidade mesmo depois de tudo consumado, peso que parece que vai ficar nos meus ombros pra sempre.</p>
<p>Quando você volta e se senta de novo na outra ponta do sofá é como uma bomba de luz que me cega, e começo a tatear a mochila, atordoado, em busca de um remédio qualquer pro meu mal-estar físico. Só pro físico, já que sei que enquanto estiver no mesmo ambiente que você, o mal-estar nunca vai ir embora. Por toda aquela época, por tudo que eu nunca deixei passar. E, enquanto engulo comprimidos com um copo d’água que você trouxe correndo e me perguntando se estou bem, ganho consciência de que nunca mais entrarei na sua casa. E percebo que, na verdade, o que eu mais gosto em você é como você sempre me fez mal.</p>
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		<title>Romãs à meia noite</title>
		<link>http://luaminguante.wordpress.com/2009/08/06/romas-a-meia-noite/</link>
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		<pubDate>Thu, 06 Aug 2009 19:13:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://luaminguante.wordpress.com/2009/08/06/romas-a-meia-noite/</guid>
		<description><![CDATA[Nasci com um coração singular. Desses que aparecem raras vezes a cada geração e que estão sempre destinados à infelicidade. Ou, ao menos, dos que não estão destinados à felicidade completa. Pois meu pecado é querer tudo – sem termo, limite ou medida, como poucas vezes se quis.
Não confundam meu querer com a mistura de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=50&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Nasci com um coração singular. Desses que aparecem raras vezes a cada geração e que estão sempre destinados à infelicidade. Ou, ao menos, dos que não estão destinados à felicidade completa. Pois meu pecado é querer tudo – sem termo, limite ou medida, como poucas vezes se quis.<br />
Não confundam meu querer com a mistura de nostalgia e dúvida que dá na maioria dos seres ao pensar nos caminhos diferentes que poderiam ter tomado, aquela de quando você pensa que se tivesse feito isso ao invés daquilo, teria mudado sua vida totalmente e teria feito com que você fosse, hoje, mas feliz, mais bem sucedido, possivelmente mais rico e mais de bem com a vida. Essas são indagações que uma hora ou outra todos fazem, quando questionam suas escolhas e seus rumos. Eu não me questiono. Não mudaria nada da vida que ia escolhendo pra mim a cada dia, ela toda sempre foi vivida da melhor forma possível. O que sempre me agonizou não era pensar em quem eu poderia ter sido, e sim querer estar em muitos lugares ao mesmo tempo, viver muitas vidas ao mesmo tempo, conhecer todos os idiomas, presenciar todas as cenas, sentir todos os gostos, amar todos os canalhas e sofrer como sofrem todas as mães, as dos bons e maus filhos.<span id="more-50"></span><br />
Verei se posso explicar melhor. Sempre olhei as pessoas na rua, sempre fiquei fascinada por elas. Cada uma, uma vida diferente. Experiências que podem até serem contadas pra mim, eventualmente, em uma noite qualquer na qual os corações se abrem diante da chuva. Ou que eu posso passar a vida sem saber. E aquele garoto ali com o olhar perdido, gosta do que? Ama a quem? E as pessoas que foram deixadas em outros lugares? Como é possível para mim estar lá e cá? Viver minha própria vida, e viver a vida que também seria boa se eu tivesse ficado. Sentir na pele a sensação do vento contra o rosto as sete da manhã de um dia cinza e o sol passando pelas folhas em dois lugares opostos do globo.<br />
Vivi com a sensação constante de que nada nunca seria o bastante. Se me era dado sorrir, eu queria saber como seria estar chorando. Se me era permitido sofrer, eu queria também festejar. Quando dormia com um homem, sabia que nunca poderia sentir o que ele sentia. Quando passava por grupos barulhentos na rua, queria fazer parte deles. Ao mesmo tempo, eles nunca fariam parte dos meus grupos. Parece bobo. Não é. Querer tudo e nada ao mesmo tempo – querer o que é seu e querer o que é meu. Talvez mais cruel ainda seja ter consciência disso. Saber que o mundo nunca será o bastante. Que uma vida nunca será o suficiente.<br />
Busquei respostas aos meus desejos impossíveis. Sabia que não seriam me dadas perguntas se eu não fosse capaz de lhes achar a resposta. Primeiro tentei procurar em pessoas, em proclamados gurus ou silenciosos sábios. Erro tolo, achar que a paz do meu coração poderia estar nas mãos de outros tão limitados quanto eu. Depois busquei religiões, ordens secretas nas quais a princípio nem poderia entrar, livros com símbolos secretos que eu não tinha permissão de ler. Mas todas as ditas revelações eram, ainda, intermediadas por homens. Cuja sede não era a mesma que a minha – eles queriam poder. “Poder” como substantivo, como algo palpável que você ganha de presente, pendura em volta do pescoço e protege para que ninguém roube. Idiotas. Eu queria viver, queria poder não como objeto, mas como verbo. O poder de realizar o que quisesse. O poder se sentir. O poder de viver. Experimentar.<br />
A resposta não estava em homens, não estava em deuses criados por homens, não estava em ilusões feitas de areia. Mas o que era o mundo além de homens controlados por criações próprias e que governavam ilusões? Não sabia. Ainda assim, continuei. Sentia que haveria uma resposta. Em algum momento, em algum lugar.<br />
Até que eu tive um certo sonho.<br />
Foi na noite de véspera de ano-novo. Logo antes da virada, dormi. O sonho se passava numa floresta. Grande, escura e silenciosa. Eu andava descalça e meus pés sentiam as fibras de cada folha seca ou úmida na qual eu pisava. Uma trilha quase inexistente levou-me a um lago, onde um ser maior que eu andava pelas bordas lamacentas. Era humano na forma, mas de uma cor azul-escura, com uma cabeça que se dividia em três faces – uma olhando para a direita, outra para a esquerda, e a do centro olhando para frente – e com inúmeros braços. Cada braço segurava uma romã de cor forte, que era mordida por uma das bocas de dentes afiados que, em seguida, cuspia as sementes em direção à terra. Onde elas caíam havia uma luz, um barulho como um estalinho de São João, e logo a semente era engolida pela terra. Só a face do centro cuspia sementes.<br />
Olhei para o ser, mas não tive medo. Ele percebeu minha presença. A face do meio parou de morder romãs e virou-se para mim:<br />
- O que faz aqui, criança?<br />
Não soube lhe responder. Ao invés disso, perguntei:<br />
- E você, faz o que?<br />
- Crio. É meia noite de um novo ano, o primeiro momento do que resolveram separar como vidas. Estou preenchendo essas vidas.<br />
Neste momento notei que no lugar em que cada pequena semente era engolida, um broto surgia, e de dentro desse broto vinham vozes. Cada voz era diferente e incessante, falando de planos, pessoas, vontades, memórias. Como num fluxo desordenado de pensamentos.<br />
- Por que isso? – perguntei.<br />
- Porque é a tarefa incumbida a mim. Assim sempre foi, assim sempre será.<br />
- Mas&#8230; como? Como você transforma as sementes em vida?<br />
Dessa vez, a face da direita me respondeu.<br />
- Eu desejo.<br />
Agora, a do meio:<br />
- Eu realizo.<br />
E a da esquerda:<br />
- E eu me lembro.<br />
Agora, as três juntas:<br />
- Sou um deus, e através do desejo, da realização e da memória, eu crio.<br />
- Como é possível para você criar, mesmo sendo um deus, se deuses são também criações de uma ou de várias pessoas?<br />
- Hah! Olha só&#8230; que surpresa agradável essa – a face do meio sorriu como quem sorri a um amigo que não vê a muito tempo. Me olhou de cima a baixo, e continuou. – Você questiona coisas interessantes, filha do mundo. Eu poderia lhe dizer que os deuses são tão reais quanto humanos, mas a verdade é que humanos são tão invenções quanto deuses. Só falham em perceber isso.<br />
- “Tão invenções quanto deuses”? Isso não é verdade! Se fosse, poderíamos ter os poderes que quiséssemos, poderíamos voar, poderíamos prever o futuro, eu poderia criar tão facilmente quanto você cria agora, cuspindo essas sementes de romã.<br />
Ele permaneceu calado. Olhou para o céu, e quando o fez, pétalas de rosas começaram a cair como uma suave neve perfumada. Estendi a mão para pegar uma. Ele me perguntou:<br />
- Sabe por que está chovendo rosas?<br />
Silêncio.<br />
- Porque eu quis.<br />
Silêncio. As pétalas tocavam meu rosto, caiam por meus ombros nus.<br />
- Agora me diga, por que você está aqui?<br />
Eu olhei para o céu, sem saber o que responder. Mas as palavras me foram à boca antes que passassem pela minha mente. Vieram direto do coração, onde eu nem sabia que estavam. E o que, pensei depois, era até muito justo. Claro que a resposta só poderia estar em mim, nunca nos outros.<br />
- Eu estou aqui porque eu quero.<br />
Ele deu um sorriso com o canto da boca. Foi caminhando sobre a água em direção ao centro do lago.<br />
- Já passou da meia-noite. Os sonhos pro próximo ano já estão plantados. Vou embora.<br />
Fui correndo atrás dele, andando sobre a água também, o que no momento não me causou espanto algum.<br />
- Não! Espera&#8230; e se eu esquecer disso quando acordar?<br />
- Quer uma lembrança, minha filha? – perguntou a face da direita.<br />
- Quero&#8230; quero.<br />
- Mesmo que ela vá ficar para sempre como parte de você, mesmo que você saiba que nuca poderá se livrar do que virá com isso? Mesmo se doer saber que você será sempre incompleta? – foi a indagação da face do meio.<br />
- Mesmo assim, assenti.<br />
- Então uma lembrança você terá. E a face da esquerda fechou os olhos.<br />
E uma das várias mãos segurou meu pulso esquerdo. Outra mão segurou o direito. Comecei a sentir que eles queimavam, uma dor desproporcional como um ferro quente. Começamos a afundar na água fria. Gritei o mais alto que pude, e quando estávamos quase totalmente afundados o rosto de três faces se inclinou em minha direção e me deu um beijo na testa, e a dor foi tão grande e insuportável que acordei, suando, com os últimos fogos lá fora ainda estourando. Meus pulsos e minha nuca formigavam. Quando olhei para os braços, vi que em cada pulso havia uma marca vermelha que ia enegrecendo. Na direita, o pulso envolto em um desenho de pequenas estrelas formando uma galáxia em miniatura. Na esquerda, uma delicada pulseira de flores azuis gravada na pele. Quando consegui olhar no espelho, havia uma serpente desenhada em minha nuca, na forma de um círculo e que devorava o próprio rabo, num ritual eterno.<br />
Pros amigos eu disse que viajei no reveillon, fiquei bêbada e acabei fazendo essas tatuagens. Quando sugeriram a remoção com laser, disse-lhes que era melhor, no fim das contas, deixar como está, até que era bonitinho. Desde então também deixei de me perguntar como poderia fazer para viver todas as sensações que queria. Ao invés disso, vivo dentro da pele de quem bem entender e realizo os desejos que nunca poderei realizar na vida real. Porque sei que essa distinção é fútil. O que é real e irreal depende unicamente da intensidade com a qual eu vivo. Vou desejando, criando e me lembrando, e passo as noites escrevendo todas as vidas que meu coração quiser que eu tenha.</p>
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		<title>Assim sem você</title>
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		<pubDate>Thu, 09 Jul 2009 21:25:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Hoje em dia, ler poemas de amor não me enche mais os olhos d’água. E os contos eu acho bonitos porque sempre apreciei a beleza na melancolia, já que eu a conheci bem antes de conhecer você. Vejo grandes histórias de amor como quem vê um lugar no qual já esteve muito tempo atrás e [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=47&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Hoje em dia, ler poemas de amor não me enche mais os olhos d’água. E os contos eu acho bonitos porque sempre apreciei a beleza na melancolia, já que eu a conheci bem antes de conhecer você. Vejo grandes histórias de amor como quem vê um lugar no qual já esteve muito tempo atrás e foi bom, e só sente na boca o gosto um pouquinho triste por aquele lugar não existir mais. Isso e a nota amarga do cigarro que acabei de fumar na janela. A instituição “nós” deixou de existir, e hoje em dia ouço as antigas músicas e penso em como éramos inocentes, mesmo você que de inocente nunca teve nada. Éramos crianças lidando com um amor de adulto – nosso amor já nasceu velho, de outras vidas e outros continentes. Era algo bonito de ver.</p>
<p>Sinto-me bem por saber que senti tanto, que vivi tanto, que vivíamos mesmo separados por milhas e milhas. O primeiro homem a me ver como uma mulher de verdade, a me desejar como se deseja uma mulher, a me amar como só um cafajeste ama quando encontra aquela que nasceu pra ser dele e ele nasceu pra ser dela. Como eu sei que fui sua e como eu sei que você era meu.</p>
<p>Não quero parecer nostálgica, mas a nostalgia é isso, deixar passar e relembrar. Não se incomode achando que penso em você hoje, pois eu penso em você de anos atrás. Quando deito no Arpoador vendo o sol morrer é em outros nomes, bocas e beijos que penso, quando sorrio no ônibus é imaginando um garoto de menos cabelo e sorriso mais largo. Mas quando ouço falar de amor de verdade, só consigo pensar nesses dois adolescentes descobrindo como crianças uma arte mais velha que o sol. Erramos tanto e de tantas formas, mas erramos por não saber acertar. E aprenderemos a acertar com outras pessoas, sentindo outros gostos e ouvindo outras risadas, ou talvez não vamos aprender nunca. Mas não importa, agora que nossa história é apenas mais uma história que quase ninguém se lembra mais.</p>
<p>Porque agora não me incomoda nem o fato de você não me incomodar mais. Talvez seja assim que as coisas aconteçam. A gente não amadurece, a gente endurece. Então deixa o Apocalipse vir de novo e a tempestade virar nosso barco. Deixa a música tocar. Que toque de novo, enquanto o tempo passa e esquecemos um do outro, uma última música em homenagem a um homem que eu não conheço mais.</p>
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		<title>Sozinho com todo mundo</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Jun 2009 21:51:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[“Flesh cover
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh”
- Bukowski
Soube uma vez que fiz um cara querer ir pra cama comigo por recitar, bêbada, a poesia mais triste do Bukowski que conheço, num balcão sujo em Copacabana. Não era bem um cara, era um amigo, e soube porque só me contaram meses depois, mas até hoje [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=43&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p align="right"><em>“Flesh cover<br />
the bone and the<br />
flesh searches<br />
for more than<br />
flesh”</em></p>
<p align="right"><em>- Bukowski</em></p>
<p>Soube uma vez que fiz um cara querer ir pra cama comigo por recitar, bêbada, a poesia mais triste do Bukowski que conheço, num balcão sujo em Copacabana. Não era bem um cara, era um amigo, e soube porque só me contaram meses depois, mas até hoje não lembro de absolutamente nada.</p>
<p>Quer dizer, não foi uma amnésia alcoólica total, me lembro de recitar o poema e de não conseguir terminar de recitá-lo. Me lembro do banheiro sujo do bar, do balcão lotado e do meu amigo lá bebendo sozinho, me lembro de sentar num canto da calçada e de, depois, vomitar na beira da praia com ele me segurando. Mas não beijei ninguém naquela noite, não tenho a mais ligeira lembrança de ter chegado com os lábios mais próximos de algo que não fosse um copo de bebida naquele carnaval. Portanto, achava que só tinha feito uma cena patética de garota ébria. Nem imaginava as implicações.<span id="more-43"></span></p>
<p>Quem me contou o que havia acontecido, numa outra noite e num outro bar, foi ele mesmo. Não foi numa tentativa de ficar comigo de novo, ainda assim senti seus olhos entristecerem diante da minha total perplexidade. Só por um momento, eu sei, como uma sombra que é logo soprada pelo vento mas que ainda assim esteve lá. E ele me explicou o que houve, como eu cheguei com cara de paga-pra-ver e ele pagou, como ele sentiu essa vontade absurda quando eu parei um beijo e comecei a dizer que <em>the flesh cover the bones and they put a mind in there and sometimes a soul </em>e como eu me emputeci por esquecer dois versos, e fui embora e quinze minutos depois estava vomitando na sarjeta. Dizendo que se ele fosse muito escroto poderia ter se aproveitado de mim, mas não o fez. Eu senti vontade de explicar que acreditava nele porque sei que ele não seria capaz de abusar de mim bêbada, mas achei que não ia adiantar. Sei bem que posso ter ficado com ele, é uma coisa que eu não faço porque não acho que valeria a pena. Ele me dá uma boa companhia, mas não a companhia pra andar ao meu lado nas várias vezes em que sigo por caminhos dentro de pensamentos e dentro de mim mesma e sinto um distanciamento tão grande e crescente de todos. Ele poderia me dar uma boa foda sem compromisso e com algum sentimento, ainda que de amizade, mas meu deus, quando as pessoas vão perceber o quanto sexo, por mais que seja bom, não basta?</p>
<p>Voltamos no mesmo ônibus naquela noite, ainda falando sobre o mesmo assunto. Quando ele foi descer, alguns pontos antes de mim, tentou me dar um beijo na boca – eu desviei. Estava gostando de outro cara, ele sabia, embora achasse que “você é mulher demais praquele lá”. Não me importava o que ele ou mais ninguém pensava, eu tinha meus princípios e seguia-os da melhor forma possível. Além disso, ele que não percebia que não era homem suficiente pra mim.</p>
<p>Mas quando deitei a cabeça no travesseiro ao chegar em casa, me senti triste por ele. Antes, ele tinha como que um segredo comigo na forma de alguns beijos. Agora, tudo que ele tinha era o medo de que eu achasse que ele mentia ou que havia abusado de mim. E, pior, agora era como se os beijos que ele quis tanto não fossem mais reais. É preciso que alguém confirme uma coisa para acreditarmos nela, não se pode acreditar na realidade de algo que só acontece pra você. É uma esquizofrenia da realidade. Uma memória não-confirmada não difere tanto assim de uma lembrança inventada na qual se acredita o bastante.</p>
<p>Ainda com umas poucas cervejas na cabeça, a última coisa que lembrei antes de dormir foram dois versos tristes de um poema triste. Eram quatro e meia da manhã. São sempre quatro e meia da manhã.</p>
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		<title>A Primeira Lembrança Na Qual Você Não Está</title>
		<link>http://luaminguante.wordpress.com/2009/06/18/a-primeira-lembranca-na-qual-voce-nao-esta/</link>
		<comments>http://luaminguante.wordpress.com/2009/06/18/a-primeira-lembranca-na-qual-voce-nao-esta/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 18 Jun 2009 17:47:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[ Ele sussurrou no meu ouvido: quero você raspadinha sexta, vou te chupar muito, faz isso pra mim?
 Sexta-feira seria nossa primeira noite a sós, com a madrugada toda pela frente. Esperávamos ansiosos pela oportunidade em que finalmente nos veríamos livres de obrigações, viagens, burocracias de check-in e check-out, tempo contado e agarração escondida em [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=42&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p class="MsoNormal"><span> </span>Ele sussurrou no meu ouvido: quero você raspadinha sexta, vou te chupar muito, faz isso pra mim?</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Sexta-feira seria nossa primeira noite a sós, com a madrugada toda pela frente. Esperávamos ansiosos pela oportunidade em que finalmente nos veríamos livres de obrigações, viagens, burocracias de check-in e check-out, tempo contado e agarração escondida em escadas e banheiros. Seria, por assim dizer, nossa primeira noite juntos de verdade. Respondi baixinho que estaria do jeito que ele quisesse.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Nunca haviam me pedido algo assim tão específico antes. Normalmente eu tinha casinhos, sexo casual com gente que eu não queria que passasse mais 15 minutos na cama comigo depois de gozar. No fundo eu os odiava, e odiava em parte a mim mesma por deixar que eles me satisfizessem com tão poucos e insuficientes momentos de prazer e migalhas de atenção. Eu não moveria um dedo – ou, neste caso, um pentelho – para dar a algum deles um pedido desses. Queriam me comer, pois que comessem. Do jeito que eu estava e sob as minhas condições.<span id="more-42"></span></p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Só houve uma outra pessoa pela qual eu faria de tudo, e foi a que nunca me pediu nada. Não pedia por amor. Não, não era amor, era adoração. Amigos e conhecidos perguntavam que loucura eu estava fazendo, de me separar de um homem que me idolatrava e me colocava num pedestal de cristal, e minha vontade era de gritar que era exatamente por isso! Porque eu não era perfeita, era carne com pecados e queria, no fundo, pecar, mas pra ele eu era tão pura que ele guardava o impuro desejo pras putas, pras vadias que se insinuavam. Não foi pela traição que nosso relacionamento acabou, foi porque ele não me comia do jeito que comia as garotas de programa pelas quais pagava tão caro. E eu lá, em casa, recebendo jóias e perfumes e um pedido de desculpas quando ele me chamava de gostosa. Não que o sexo fosse ruim, mas não era o que eu queria. Deixava-me com um gosto doce demais na boca, de um doce que enjoa. Ah, se ele soubesse o quanto eu queria sentir o salgado do suor dele sobre mim. Ele cuja voz sempre ecoava na minha cabeça nos meus momentos mais sujos, como um corvo gritando “nunca terás”. Ou o amor que sentes ou o sexo que desejas, anunciava-me. Nunca entendi essa separação de mulher boa pra transar e mulher boa pra amar, mas ainda assim, era assombrada por essa constatação. Ou um, ou outro. Escolha.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>E aí eis que me aparece, de onde eu não esperava que viesse nada, alguém que me olha com olhares de lobo. Num momento a gente discutia teorias de filósofos e conceitos físicos enquanto tomava um cappuccino, no momento seguinte ele me encostava com força contra a parede de um canto escuro e me chamava de tantos outros nomes pelos quais uma moça de família não deveria gostar de ser chamada. Eu não admitiria, mas adorava. Era a mulher inteligente e a boa companhia que ele apresentava aos amigos, e era uma putinha. A putinha dele.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Na quinta-feira, horário do almoço, andei no shopping até chegar a uma loja de departamentos feminina. Passeei na seção de moda íntima até encontrar o que procurava. Na volta pra casa, passei na farmácia. A noite, durante um banho quente e demorado, raspei faixa por faixa dos pelos encaracolados que me cobriam desde os doze anos, até não sobrar nenhum. De volta ao quarto, ainda nua e ainda com bastante calma, tirei as cutículas e passei camadas uniformes de esmalte nas unhas. Eu queria o ritual completo. Queria o frio na barriga e a sensação entre as pernas de antecipação que tem a noiva virgem na véspera do casamento. Sexta-feira de manhã me olhei no espelho antes de sair, primeiro para minha boceta agora pelada e depois para ela coberta pela pequena calcinha de rendas negras com a qual eu passaria o dia esperando por ele – esperando para que ele a tirasse. Em minha cabeça eu daria um sorriso para cada homem com o qual cruzasse na rua, como quem tem um segredo consigo mesmo. A noite, finalmente juntos, eu sentiria sua boca me mordendo e sua mão me agarrando os cabelos. Depois de meu primeiro orgasmo de verdade, poderíamos finalmente dormir abraçados como duas crianças fatigadas pelo resto da noite. Eu, com um gosto peculiar na boca. Não doce como baunilha. É chocolate. Meio-amargo.</p>
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<p class="MsoNormal"><span> </span>Ele sussurrou no meu ouvido: quero você raspadinha sexta, vou te chupar muito, faz isso pra mim?</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Sexta-feira seria nossa primeira noite a sós, com a madrugada toda pela frente. Esperávamos ansiosos pela oportunidade em que finalmente nos veríamos livres de obrigações, viagens, burocracias de check-in e check-out, tempo contado e agarração escondida em escadas e banheiros. Seria, por assim dizer, nossa primeira noite juntos de verdade. Respondi baixinho que estaria do jeito que ele quisesse.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Nunca haviam me pedido algo assim tão específico antes. Normalmente eu tinha casinhos, sexo casual com gente que eu não queria que passasse mais 15 minutos na cama comigo depois de gozar. No fundo eu os odiava, e odiava em parte a mim mesma por deixar que eles me satisfizessem com tão poucos e insuficientes momentos de prazer e migalhas de atenção. Eu não moveria um dedo – ou, neste caso, um pentelho – para dar a algum deles um pedido desses. Queriam me comer, pois que comessem. Do jeito que eu estava e sob as minhas condições.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Só houve uma outra pessoa pela qual eu faria de tudo, e foi a que nunca me pediu nada. Não pedia por amor. Não, não era amor, era adoração. Amigos e conhecidos perguntavam que loucura eu estava fazendo, de me separar de um homem que me idolatrava e me colocava num pedestal de cristal, e minha vontade era de gritar que era exatamente por isso! Porque eu não era perfeita, era carne com pecados e queria, no fundo, pecar, mas pra ele eu era tão pura que ele guardava o impuro desejo pras putas, pras vadias que se insinuavam. Não foi pela traição que nosso relacionamento acabou, foi porque ele não me comia do jeito que comia as garotas de programa pelas quais pagava tão caro. E eu lá, em casa, recebendo jóias e perfumes e um pedido de desculpas quando ele me chamava de gostosa. Não que o sexo fosse ruim, mas não era o que eu queria. Deixava-me com um gosto doce demais na boca, de um doce que enjoa. Ah, se ele soubesse o quanto eu queria sentir o salgado do suor dele sobre mim. Ele cuja voz sempre ecoava na minha cabeça nos meus momentos mais sujos, como um corvo gritando “nunca terás”. Ou o amor que sentes ou o sexo que desejas, anunciava-me. Nunca entendi essa separação de mulher boa pra transar e mulher boa pra amar, mas ainda assim, era assombrada por essa constatação. Ou um, ou outro. Escolha.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>E aí eis que me aparece, de onde eu não esperava que viesse nada, alguém que me olha com olhares de lobo. Num momento a gente discutia teorias de filósofos e conceitos físicos enquanto tomava um cappuccino, no momento seguinte ele me encostava com força contra a parede de um canto escuro e me chamava de tantos outros nomes pelos quais uma moça de família não deveria gostar de ser chamada. Eu não admitiria, mas adorava. Era a mulher inteligente e a boa companhia que ele apresentava aos amigos, e era uma putinha. A putinha dele.</p>
<p class="MsoNormal"><span> </span>Na quinta-feira, horário do almoço, andei no shopping até chegar a uma loja de departamentos feminina. Passeei na seção de moda íntima até encontrar o que procurava. Na volta pra casa, passei na farmácia. A noite, durante um banho quente e demorado, raspei faixa por faixa dos pelos encaracolados que me cobriam desde os doze anos, até não sobrar nenhum. De volta ao quarto, ainda nua e ainda com bastante calma, tirei as cutículas e passei camadas uniformes de esmalte nas unhas. Eu queria o ritual completo. Queria o frio na barriga e a sensação entre as pernas de antecipação que tem a noiva virgem na véspera do casamento. Sexta-feira de manhã me olhei no espelho antes de sair, primeiro para minha boceta agora pelada e depois para ela coberta pela pequena calcinha de rendas negras com a qual eu passaria o dia esperando por ele – esperando para que ele a tirasse. Em minha cabeça eu daria um sorriso para cada homem com o qual cruzasse na rua, como quem tem um segredo consigo mesmo. A noite, finalmente juntos, eu sentiria sua boca me mordendo e sua mão me agarrando os cabelos. Depois de meu primeiro orgasmo de verdade, poderíamos finalmente dormir abraçados como duas crianças fatigadas pelo resto da noite. Eu, com um gosto peculiar na boca. Não doce como baunilha. É chocolate. Meio-amargo.</p>
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		<title>Confissões de um quase herói</title>
		<link>http://luaminguante.wordpress.com/2009/05/28/confissoes-de-um-quase-heroi/</link>
		<comments>http://luaminguante.wordpress.com/2009/05/28/confissoes-de-um-quase-heroi/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 28 May 2009 12:38:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>

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		<description><![CDATA[Mamãe e Papai sempre quiseram que eu fosse especial, justo, defensor de todos que precisassem de algum tipo de defesa. Eles mesmos davam aulas sobre ética em casa enquanto eu aprendia judô na escolinha, porque afinal alguém sempre se precisa de uma proteção contra os terríveis bandidos. Minhas festas de aniversário eram sempre com temas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=38&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p>Mamãe e Papai sempre quiseram que eu fosse especial, justo, defensor de todos que precisassem de algum tipo de defesa. Eles mesmos davam aulas sobre ética em casa enquanto eu aprendia judô na escolinha, porque afinal alguém sempre se precisa de uma proteção contra os terríveis bandidos. Minhas festas de aniversário eram sempre com temas de super-heróis. Me davam gibis do Super-Homem e alugavam os filmes do Batman. Queriam que eu fizesse pelo menos uma boa ação por dia, e toda noite antes das histórias com moral que eu ouvia antes de dormir, eu tinha que contar a eles qual fora a boa ação de hoje. Do mesmo jeito que alguns pais consultam uma palavra por dia no dicionário e tornam aquela a “palavra do dia”. “Altruísmo: ajudar sem querer nada em troca”. “Bom: moralmente correto em suas atitudes”. “Coragem: falta de medo, audácia”. Essas interpelações noturnas só não eram completamente inúteis porque me faziam pensar e inventar coisas novas dia após dia – meu grande segredo era que, no fundo, eu estava é me lixando pra tudo isso. Quando crescesse, queria mesmo é ser arquiteto.</p>
<p><span id="more-38"></span>Claro que Mamãe e Papai não podiam nem pensar nesse caso. Conforme ia crescendo, comecei a me perguntar como poderia fazer pra explicar pros dois que seu filho tão bem criado na moral e bons costumes para defender o Bem Maior queria pura e simplesmente desenhar casas. Talvez eu pudesse dar um ar mais heróico à arquitetura? Dizer que eu planejava casas para desabrigados e lhes proporcionava um melhor modo de vida? É. Quando mais pensava em soluções, mais achava que elas não iam colar. Eu me desesperava pensando no que faria quando finalmente chegasse a hora de dizer a verdade, mas esse problema Papai e Mamãe resolveram eles mesmos.</p>
<p>Porque não me entra na cabeça que não foram eles que planejaram tudo isso. Vocês podem dizer que é absurdo, mas não conheceram Papai e Mamãe do jeito que eu conheci. O que eu acho que aconteceu é que eles percebiam que eu não me interessava tanto quanto deveria me interessar, porque afinal eu tinha uma infância feliz e tranqüila. Aonde já se viu sede de justiça surgir de uma vida tranqüila? Então deram a cartada final, o supremo ato de auto-sacrifício em nome do Bem Maior. Eu já tinha uns quinze anos, era domingo e eu jogava videogame na casa de um amigo, quando a mãe dele entrou com uma cara de preocupada e disse que precisava falar comigo. Eu não estava entendendo muita coisa, porque geralmente ela só falava comigo com um sorriso no rosto e de preferência perguntando se eu queria ficar para o jantar. Até que ela começou e tudo que consegui entender naquele momento foi algo sobre meus pais, um assalto, uma arma e um &#8220;sinto muito&#8221;. Fui morar com uma tia, em outra cidade. Tudo que ouvia dos familiares era que Papai e Mamãe tinham sido muito corajosos e nessa época eu fiquei muito triste, mas no fundo também ficava puto. Como assim? Como eles ousavam? Primeiro irem embora, depois irem embora desse jeito – sendo heróicos e corajosos diante do Mal? Aquilo me irritava profundamente. Mas eu também não contava pra ninguém.</p>
<p>Dois anos depois eu tive que fazer vestibular. Prestei arquitetura e me formei como um dos melhores da turma, e senti muita falta de Papai e Mamãe na formatura, mas não tanto quando imaginei os olhares – seriam de alegria, de reprovação ou de decepção? Bom, mas afinal, eles queriam o que? Que eu jurasse vingança a esse mundo injusto em que vivemos e começasse a combater o crime vestindo uma máscara e procurando gangues no meio da noite enquanto arrumava um trabalho de meio período? Ah, me poupe né.</p>
<p>Me formei, arrumei um trabalho decente, comprei um pequeno apartamento. Tudo ia bem até que, um dia, achei ter visto de relance um par de olhos no espelho do banheiro. Era um par de olhos usando óculos iguais aos de Mamãe.</p>
<p>A coisa foi piorando. Depois comecei a ver os olhos do meu pai, com aquele olhar reprovador que ele me dava de vez em quando. E em algumas semanas, eu via os olhos dos dois ao mesmo tempo. No espelho do banheiro, no do quarto, nas panelas limpas da cozinha, no reflexo de uma vitrine na rua. Os amigos diziam que eu parecia cansado, que andava trabalhando muito, mas não percebiam que eu trabalhava muito pra poder pensar em outra coisa que não fosse aquela acusação muda. Em pouco mais de um mês, eu já estava exausto. Fui a um médico, que me repassou a uma psiquiatra. Ela disse que eu estava paranóico e precisava relaxar, e eu tive vontade de perguntar pra ela qual era a novidade. Falou que a culpa estava me consumindo, por não ter cumprido o desejo dos meus pais, e que eu só precisava superar isso. Mandou que eu usasse o carnaval pra aproveitar pra descansar e pensar no passado. Como se fosse fácil.</p>
<p>Além de tudo, eu sempre detestei carnaval. Não via a menor graça. Mas, já que era pelo bem da minha já parca sanidade mental, resolvi bolar uma programação qualquer, pedindo dicas aos carnavalescos de plantão que desde dois meses antes já estão saindo em blocos pelas ruas. Consegui arrumar alguns lugares para ir, imperdíveis segundo eles. Ainda me falaram que, já que eu estava aproveitando esse ano pra me divertir, devia entrar mais no clima e comprar uma fantasia, arrumar uns apetrechos, sei lá.</p>
<p>Fantasia e apetrecho já é demais, pensei. Mamãe e Papai não podem ter feito tanto estrago assim no meu eu interior. Na véspera do primeiro dos dias do que seria, segundo meus amigos, “o melhor carnaval da minha vida”, eu voltava do trabalho e vi pela primeira vez uma loja que estranhamente sempre esteve no meu caminho. No manequim lá dentro, uma fantasia de Super-Homem. Parei. Aquela fantasia ficou me olhando, me olhando&#8230; e eu fiquei me debatendo. Não ia fazer uma coisa dessas, não tinha cabimento, era meu pensamento enquanto assinava o papel do cartão de crédito na loja. No dia seguinte, pensando no absurdo, saí de casa em rumo à minha primeira experiência carnavalesca.</p>
<p>Estava lotado, cada pessoa com uma roupa mais esdrúxula que a outra, e em cada rosto um sorriso mais gostoso de ver que o outro. Alguns bebiam, alguns tinham crianças, outros jogavam serpentinas, mas todos brincavam. E riam. E se apertavam, mas pareciam felizes. Comecei a esquecer tudo e ir com a galera. Um cara vestido de garçom passou pelo meu lado, três garotos vestidos de ajudantes de Papai Noel pararam e apontaram pra mim, gritando. Eu não entendi nada, mas ri junto. Um dos garotos chegou mais perto e perguntou se eu queria voar. Perguntei como, ele me disse que só esquecesse os problemas e relaxasse. Pode ser? Pode. E depois que fechei os olhos, quando os abri de novo estava acima de todas as cabeças, fazendo pose e pronto para atacar os bandidos, ainda que só naquele dia e só naquele momento. Mas deu certo. Eu ri tanto que os problemas ficaram pra trás naquele carnaval e me ajudaram a aceitar que eu sou quem eu sou. Os olhos de Papai e Mamãe nunca mais me assombraram.</p>
<p><img class="alignnone size-full wp-image-39" title="superman" src="http://luaminguante.files.wordpress.com/2009/05/superman.jpg?w=460&#038;h=345" alt="superman" width="460" height="345" /></p>
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		<title>Um relógio de você</title>
		<link>http://luaminguante.wordpress.com/2009/01/29/um-relogio-de-voce/</link>
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		<pubDate>Thu, 29 Jan 2009 19:29:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>agarota</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[ônibus]]></category>
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		<description><![CDATA[“Minhas verdades estão nas mentiras que eu conto e minhas mentiras estão nas verdades que eu invento.”
Alexander Sousa (SHIMN)
13:45, começo a ficar ansiosa. Parecendo um lêmure com os ouvidos atentos a cada ruído vindo do canto onde fica a porta, cada vez que ouço um som me viro rápida mas discreta, porque eu quero ver [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=luaminguante.wordpress.com&blog=3438184&post=35&subd=luaminguante&ref=&feed=1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class='snap_preview'><br /><p><em>“Minhas verdades estão nas mentiras que eu conto e minhas mentiras estão nas verdades que eu invento.”</em><br />
<a title="Caderninho-on-Demand" href="http://caderninho-on-demand.blogspot.com" target="_blank">Alexander Sousa</a> (SHIMN)</p>
<p>13:45, começo a ficar ansiosa. Parecendo um lêmure com os ouvidos atentos a cada ruído vindo do canto onde fica a porta, cada vez que ouço um som me viro rápida mas discreta, porque eu quero ver mas não quero que me vejam. Eu sei, você só chega as duas, mas quem sabe pode chegar mais cedo. Ou talvez um pouco mais tarde. E ainda tem a variável de você vir falar comigo quando chegar ou não. Talvez, se nós tivermos deixado um assunto importante interrompido ontem, você venha fazer algum comentário à guisa de boa tarde. Talvez você não ache o assunto assim tão importante. Afinal, nós sempre temos um assunto ou outro interrompido e que nunca lembramos de retomar. São só pedaços de conversas, nos pedaços de tempo que eu tenho você.</p>
<p>Meu dia é dividido em horários – nos seus horários. De 13:45 até 14:15, sua chegada. Exatamente as 17:00h, com uma margem de meia hora para mais ou para menos, é a hora em que você vem na minha mesa perguntar se eu estou com fome, se quero que você traga alguma coisa pra comer do seu lanche na rua.</p>
<p>“Quero, traz um beijinho.”<br />
“E aonde é que eu vou achar alguém vendendo doce?”</p>
<p>Doce, ai. <span id="more-35"></span>O doce que eu quero é outro, tá? Eu já vejo todo dia, tá em algum lugar da sua boca, não quer trazer mais pra perto de mim não?</p>
<p>Você volta me trazendo um chocolate, já sabe qual é o meu preferido. E eu começo a contagem regressiva pra nossa próxima conversa: 19:30, seu horário de saída. Eu posso sair uma hora e meia mais cedo, mas você não sabe. Eu posso pegar meu ônibus muito mais rápido se não for pelo caminho que segue até o seu ponto, mas você também não sabe. Eu quero roubar cada cinco minutos que eu tiver pra estar ao seu lado, e disso você sabe menos ainda.</p>
<p>O centro da cidade hoje está um caos, a fila pro seu ônibus é algo inimaginável. E você não vai conseguir pegar um lugar sentado tão cedo, já vou avisando. Quem mandou morar longe? Tem um ônibus que vai praquele lado que sai da Praça XV, quer ir tentar lá?</p>
<p>Pronto, roubei mais cinco minutos, mas lá também está lotado e você sugere aquele que passa lá na Presidente Vargas. Vamos indo. Eu olho um bueiro pintado com a cara do pac-man no meio da calçada, você dá risada.</p>
<p>“Como é que você consegue ver essas coisas?”</p>
<p>Ah, meus olhos são grandes, tipo do lobo mau, são feitos pra ver. Que nem minha boca grande feita pra falar, só o que eu tenho de pequenininho é meu coração, que ao contrário de todo o resto, foi feito pra ser assim frágil, pra ser protegido. Mas dele eu não conto pra quase ninguém, o que todo mundo vê são só meus olhos. E com eles eu vejo cada coisa que nem te conto. Eu olho nos olhos das pessoas, olho bem fundo desse jeito, e consigo ver elas por dentro como se fosse um espelho, eu e meus olhos grandes. Consigo ver todos, menos você, garoto dos olhos de abismo. Aonde é que você se esconde?</p>
<p>Nós vamos passando e é claro que a Avenida também está toda parada. Ai meu Deus, como é que eu vou chegar em casa?, você pergunta. Não precisa chegar, fica aqui comigo, que eu fico andando na chuva fina com você a noite inteira, e seu ônibus nunca mais vai interromper nossas conversas, e minha casa vai ser qualquer lugar onde eu esteja contigo.</p>
<p>“Última tentativa. Tem um ônibus com ponto final na Praça Mauá, acho que de lá eu consigo um lugar.”</p>
<p>Então vamos. E no caminho passamos por tantos prédios, ruas e lugares, e de cada um deles eu vou contando uma coisa, e daqui você chega pra lá, e aqui aconteceu tal coisa, e eu acho tão legal isso de terem construído a avenida com a igreja da Candelária bem no meio, você não acha? E você me olha com esses seus olhos que eu não sei decifrar, me sorri com essa boca que eu não posso beijar e me diz “Nossa, que lugar você não conhece?”</p>
<p>“Não conheço aonde você mora.”<br />
“Não, engraçadinha, to falando aqui do Centro.”</p>
<p>Ah, se você me levasse a sério. Se você ouvisse o que eu falo de verdade. Ou será que ouve, e fica só fingindo que não sabe, que não viu, que não é? Porque você ri quando passamos em frente a um hotel e eu te digo que olha, é mais fácil ficar aí mesmo, que sair do Centro hoje tá difícil, ri e me olha como quem pergunta o que eu quero dizer com isso. Quero dizer isso mesmo: quero que você fique, que eu fico junto e te roubo essa noite, te roubo a manhã seguinte, e quando você reparar eu já te roubei pra mim o resto da vida. Acha que eu estou de brincadeira? Paga pra ver.</p>
<p>“Chegamos. Olha lá o ônibus, já tá saindo!”</p>
<p>Você vai correndo e me deixa pra trás, meu tempo por hoje acabou. Entra no ônibus quando eu acabei de chegar no ponto, e só dá tempo de olha pelo vidro encardido enquanto o motorista fecha a porta. Eu faço cara de brava porque você nem se despediu de mim, e você balança os ombros e me joga um beijo.</p>
<p>São 20:15. Vou descer toda a rua de novo até poder pegar meu ônibus. Mas já começo a contar: dezessete horas e meia pra eu voltar a ser feliz.</p>
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