Tem sido longos dias
Há quanto tempo eu não levanto meu olhar do chão?
Hoje, depois de muito tempo, me pus a observar a paisagem por uns bons vinte minutos, sem me importar se o telefone ia tocar lá dentro ou se alguém ia me chamar pra fazer algo urgente. Assim, só olhando, encostada na janela. Ouvindo os sons da rua. Vendo as velhas levando seus cachorros pra passear e os adolescentes barulhentos voltando da escola. Tinha um senhor, também, de cabelos poucos e brancos, numa janela do outro lado da rua, observando tudo. Olhando pro horizonte. Meu olhar seguiu o dele.
Não me lembro quanto foi a última vez que foquei meus olhos no horizonte. Mas deve fazer, já, bastante tempo. Meus óculos são novos, mas a distância ainda assim ficou borrada, inatingível, quase efêmera. Talvez fosse a luz. Talvez fosse algum reflexo de calor. Ou talvez fossem apenas meus olhos desacostumados.
Era incomodo ficar olhando praquela direção, e ainda assim eu continuei. Não podia acreditar que eu havia me perdido tanto, que eu havia perdido o horizonte que sempre guiou meus passos e me deu vontade de andar. O que mais eu perdi e nem reparei? Quanto tempo ainda vou levar pra recuperar tudo? Se é que são coisas que dá pra recuperar.
Respostas que só se tem com o tempo são, para mim, as piores de se obter. Já fui mais paciente do que sou hoje, mas isso também se foi. Pelo jeito, será a primeira coisa a ter que voltar, já que a outra opção é ignorar as perguntas e simplesmente deixar pra lá tudo que perdi. E isso eu não posso deixar de lado. O que me sobra, se eu mesma não me reconhecer mais?
Terei de novo paciência. Olharei para o horizonte até que meus olhos se acostumem de novo. Vou desenterrar todo o lixo que eu mesma joguei em cima de mim, até que minhas mãos sejam visíveis de novo, até que meu peito possa respirar em paz novamente.
Mesmo que demore, eu vou me achar outra vez.
