Romeu, Romeu, onde estás, Romeu?
Meu nome não é Julieta. Chamo-me Gabriela. E, na verdade, não tenho nada em comum com a clássica personagem de Shakespeare, além do fato de, com ela, ter me apaixonado por um Romeu.
Os pais dele sempre foram românticos, amantes da literatura. Ele também. Sempre escreveu contos, romances, chegava a arriscar uns poemas vez ou outra – só quando a coisa fica feia, dizia. Já eu sempre preferi os números, as fórmulas e equações. Passei pra faculdade pública, no curso de Física, com 18 anos. Com 23 estava no Mestrado. Uma pesquisadora e cientista, desde cedo. Enquanto ele, romântico, evasivo, já havia começado duas faculdades e passado seis meses viajando pelo litoral do Brasil, antes que eu terminasse a minha primeira graduação. Todo mundo dizia que nunca ia dar certo. Eu sabia que nunca ia dar certo. Antes do nosso primeiro beijo, eu perguntei a ele:
- Você acha que existe alguma chance disso dar certo?
E a resposta eu já sabia, claro, vinda da boca dele:
- Não vai, mas vai ser divertidíssimo.
E tudo que eu precisava era ser divertidíssimo. E era ser com ele.
Ficamos juntos por pouco tempo. Mas eu nunca havia conhecido um homem como ele. Pra mim, que sempre tinha desprezado “tipos” e “ideais”, Romeu chegou com violência, furor, estuprando meus conceitos de que “não existe nem nunca vai existir um cara perfeito”. Ah, ele existia. E era Romeu.
Mas eu não era a Capuleto de seus sonhos, nem ele era meu Montecchio perfeito. Havia muito mais impossibilidade do que realidade entre nós. E eventualmente, mais cedo do que eu gostaria, o mundo nos colocou em caminhos separados. Hoje em dia sou casada, moro na Inglaterra e completei meu PhD há poucos anos. Nunca mais soube de Romeu. Mas ainda penso nele, com a freqüência de uma jovem apaixonada.
Penso em Romeu quando vejo poetas de calçada. Penso em Romeu quando ouço música de câmara e me lembro o quanto ele gostava de andar pela rua assobiando Chopin. Especialmente, penso em Romeu quando brigo com meu marido. Quando as crianças me dão dor de cabeça e minha vontade é de afogar a cabeça debaixo de um travesseiro até não ouvir mais nada. Penso em Romeu nos meus momentos ruins, de desânimo, de tristeza, quando me entretenho imaginando a vida que teríamos levado. As viagens, as discussões filosóficas, uma casa na serra pra onde voltar e assistir DVDs nas cobertas, depois de ter passado tanto tempo longe de casa que a tranqüilidade parecesse apetitosa. Romeu virou meu porto seguro, pensar em Romeu me dá novas forças, amar Romeu me faz feliz, mesmo que ele nunca vá saber de todo o meu amor. As vezes, chego a pensar que seja melhor que ele não saiba. Talvez seja melhor mesmo que nada tenha acontecido. Romeu e Julieta não foram feitos pra ficarem juntos – só na morte, que une finalmente todas as coisas. Como ambos amamos, além de um ao outro, a vida, esta solução nos seria impossível. Quem sabe, em algum outro lado da existência. Quem sabe, em alguma outra oportunidade.
Se não fosse Romeu em quem eu pensaria, sorrindo e olhando pro céu, quando tudo mais à minha volta parece desabar? Preciso do meu platonismo. Preciso do meu amor que existe só por ser amor, só pra que eu possa senti-lo e achar que, por ele existir, o mundo fica de alguma forma mais bonito. Preciso dos meus sonhos. Preciso do meu Romeu.
Ah, Romeu.
