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August 8, 2010 / agarota

Enquanto você dormia

Porque eu tenho o costume de acordar cedo, já pelas oito e meia da manhã meu organismo silenciosamente se rebela contra o fato de ser domingo e de eu querer continuar na cama até pelo menos meio dia e meia. E entre um sonho interrompido e o trocar de lado pra cair num outro espasmo curto de imaginação, meus olhos ainda sonolentos te vêem assim de lado com a boca meio aberta, um rosto tão sério que é tão diferente do seu normal e ao mesmo tempo tão de criança, que é tão você e ao mesmo tempo não é.

E eu fico me perguntando se todo mundo quando dorme fica com um ar infantil no rosto, ou se isso são só coisas que eu vejo por estar com sono e por te amar tanto. Ver você dormindo assim com tanta tranqüilidade faz com que algo dentro de mim me faça acreditar você só está dormindo tão bem porque sabe que a qualquer momento vai poder esticar o braço e me puxar mais pra perto, e nossas peles vão se tocar e nossos cheiros vão se misturar como se misturam nossos planos, sonhos e desejos. Mais tarde, quando eu adormecer sem você está noite, com alguma sorte ainda vai ter algum resto do seu cheiro no travesseiro. E isso não me serviria de nada se não fosse pra lembrar da cena de agora, seus ombros recortados contra a parede branca e iluminados pela luz que insiste em entrar filtrada pela cortina.

Eu sussurro um “ah, droga, eu te amo” com os olhos fechados e você dá um meio grunido e se meche um pouco, e fico preocupada de você ter ouvido e de ter feito você acordar. Mas logo você respira fundo, se acalma e volta a sonhar. Que bom. É melhor assim, sem você ter escutado nada. Não é preciso que eu diga o quanto é possível se apaixonar pelo rosto de alguém dormindo, não seria justo pra nenhum de nós dois que eu diga a extensão dos meus sentimentos. Mas por alguns momentos eu queria não me fiar pelo que é justo.

Porque também não é nem justo nem certo que esta seja a última vez em que eu vou dormir do seu lado. Não é justo que termine assim. Mas a sua veemência foi tão grande ao decidir que não havia nada a ser feito a respeito do nosso impasse que fico pensando se, afinal, a perda não foi maior pra mim do que pra você. A veemência das vidas separadas, o obstáculo tão grande que dessa vez não dá pra atravessar. Que nos reste a amizade, se ela ainda sobreviver. E ainda assim, ainda com o peso do término nas costas e das lágrimas nos olhos, passamos essa última noite juntos, só dormindo, abraçados, só porque já estávamos aqui mesmo. Só pra adiar a perda inevitável dos costumes e carinhos. Viro pro outro lado e confabulo sobre o que será que você está sonhando, mas de qualquer forma, não deve ser comigo. Você se meche de novo, acorda um pouco e me pergunta as horas sem abrir os olhos, eu minto dizendo que é mais cedo. Não quero que esta noite acabe.

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