Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
- Manual Bandeira
Lá fora o céu está cinza e chove uma garoa fina e insistente desde as horas da madrugada. Aqui dentro, também é tudo cinza e chuvoso. Não dentro do quarto onde estou, seca, quente e confortável, mas dentro de mim tudo é chuva e cinza e incômodo. Parece que dentro de mim sempre há a chuva e o incômodo.
Eu busco acalanto em poetas mortos que não me conhecem, e tudo que eles dizem é que talvez eu não seja a única pessoa do mundo com essa vastidão de melancolia por dentro. Não sei o quanto isso me alivia ou não. Mas também, não sei o que exatamente eu busco em todos eles – os poetas vivos, os mortos, os contistas e cronistas e músicos e romancistas e também nos amigos, nas pessoas presentes, nas ausentes, nos que eu amo e nos que eu tento amar. Talvez uma resposta, mas ao quê, eu não sei dizer. A explicação sobre tudo, a lógica por trás das coisas que acontecem, o porquê a gente tem que passar por tudo dessa forma e se sentir desse jeito. Eu busco em humanos respostas que talvez nem o céu possa me dar.
No meio do meu mundo interior onde chove sem parar, parece que eu tudo tem uma palavra grande e em letras garrafais, que me grita sempre “INCOMPLETO” e “IMPOSSÍVEL”, duas palavras que me doem mais que qualquer outra coisa, talvez menos só do que saber que todas as minhas perguntas nunca vão ser respondidas.
E os “porquês” vão sendo jogados na minha frente, um depois do outro, e eu vou lendo sobre amores impossíveis, desejos impossíveis, mais e mais fomes que me parece que nunca foram saciadas, e penso se ainda existe esperança pra mim em algum lugar.
Em algum lugar, parece que algumas pessoas se encontraram. Na tamanha simplicidade do Caeiro, que me diz que pensar incomoda como andar na chuva e que pensar é estar doente dos olhos. E um aviador com nome de santo me diz que aprendeu, um dia, que as flores são contraditórias e que sempre se corre o risco de chorar um pouco pra ganhar algo. Eu, as vezes eu choro muito. Talvez isso queira dizer que eu também tenha ganho bastante coisa. Talvez. Não custa pensar positivo.
Afinal, mesmo que todos os dias sejam de chuva, nem todos eles são cinzas. Alguns tem sol, e a água clareia as cores e faz o verde das árvores ficar mais verde, ou o aconchego do abraço ficar mais quente, e por um momento talvez dá pra pensar que não vale a pena mesmo ficar se perguntando tanto sobre tudo, e que talvez até valha a pena sofrer um tanto assim em troca de certos sorrisos. Quem sabe? Eu não sei. Sei só que uma paisagem seca não me saciaria, então talvez seja mesmo pra eu aprender a lidar com os dias cinzentos. Talvez haja um par de olhos que possa embalsamar minha solidão de vez em quando.
Talvez eu vá morrer fazendo perguntas, mas ainda assim dizendo que valeu a pena.
Quem sabe? Resta acreditar.
