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August 8, 2010 / agarota

Como dois animais

Meu nome é Nicholas. E, tenho que admitir desde o começo, sempre tive um coração mais mole de pudim de leite de vó. Por isso, acho que fica até compreensível eu dizer que, um dia desses, eu estava caminhando pela rua, cuidando da minha vida, quando a vi. Magrinha, um pouco pequena pra sua raça, provavelmente mestiça, e com uns olhos mais tristes que passarinho engaiolado e mais solitários que uma cobra no deserto. Não resisti. Me aproximei e, dentro de poucos minutos e de um ou outro afago, estávamos a caminho de casa.

A adaptação foi um pouco difícil, mas com muito carinho e atenção, logo estabelecemos uma rotina simples na casa pequena mas com um bem arborizado jardim em que vivíamos apenas os dois. Sempre fazíamos as refeições no mesmo horário, e no finzinho do dia haviam longos passeios por um parque lá perto.

Até que, como sempre acontece com as rotinas confortáveis, algo aconteceu.

Primeiro, foi aos poucos. Mas comecei a notar que ela ia ficando ausente, se não no físico, mas naquele olhar que da primeira vez tanto havia me chamado a atenção. Um tempo depois eu passei a perceber o motivo. Claro, seria difícil que não: toda vez que o “motivo” passava na rua, lá ia ela correndo pro portão. Ora essa, pensei, que ultraje. Então um vadio qualquer que passa pela rua acha que pode vir aqui se engraçar no meu portão e ameaçar aquela que eu tratei com tanto amor? Mas ela não parecia achar a mesma coisa. Eu tentava fazer com que ela não o percebesse, mas parece que havia algo que a chamava, esses instintos que eu nunca vou entender. Passei a tentar ameaçá-lo. No começo ele me via e se afastava, mas com o tempo, nem isso.

Você há de entender minha proteção. Não que eu não confiasse nela, mas sempre soube que ela era frágil. Não só por fora. Eu sabia o quanto ela precisava de atenção. Não seria bom, para ela, passar por mais abandonos, visto o estado em que a pobrezinha estava quando eu a encontrei. Sem contar que, vamos admitir, fêmeas têm aquela coisa. Aquela que nós nunca vamos conseguir entender, explicar e muito menos controlar. E eu, definitivamente, não a queria perto daquele perdido.

Mas o que fazer? A gente cria, cuida, e de repente dá nisso. Mas não vou deixá-la sozinha novamente. Outro dia, sem que eu percebesse, voltei do meu revigorante sono da tarde e quem eu encontro na sala? Botei-o pra correr aos gritos. Mas temo que ele possa entrar de novo. Bem, que entre. Continuarei aqui onde estou. Parado na frente da porta, olfato apurado em busca do cheio dele, só esperando que ele tente se apossar da minha pequena princesa, tão carinhosa, que agora lê tranqüila na poltrona da sala. Ela sabe que pode ficar tranqüila comigo aqui, mesmo que não reconheça a ameaça que ela mesma insiste em trazer pra casa. Não se preocupe. Seu cão nunca a abandonará, minha dama. Serei leal até a morte.

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