Conto de um Natal de 2003
É natal. Véspera. Reunião de família, ceia, árvores, presentes.
Ela não pensa nos presentes. Toda vez que alguém tenta, em vão, atiçar sua curiosidade, ela responde baixinho: o que eu queria, já ganhei mesmo.
Ele anda atarefado. Ajuda a mãe na cozinha – gosta de cozinhar, quer ser chef algum dia – fazem bolinho de bacalhau, rabanada.
Ela ouve as tias falando, mas não escuta.
Ele coloca pratos demais na mesa, mas nem percebe.
Pensam um no outro. Não adianta tentar evitar, a idéia volta, insistente. Ela se pergunta se ele está pensando nela. Ele se pergunta se ela vai lembrar dele. No fundo, ambos sabem a resposta.
Ele se inquieta. Lembra dos beijos, de olhar nos olhos. Por dentro, a saudade o machuca, aperta, deixa sem fôlego. A mãe o chama na cozinha, ele volta à realidade.
Ela pensa em tudo que aconteceu, tão pouco tempo atrás. Pensa no rosto dele, nas músicas, nas coisas sussurradas ao ouvido. Sufoca-lhe a nostalgia, ela acorda e volta ao seu mundo.
Que idade eles tem, quantos anos? Quinze, dezesseis, vinte, cinqüenta, cinco mil? Nada disso importa agora.
Importa o momento, aquele momento mágico, em que os pensamentos se encontram e ambos tem uma súbita e clara certeza: certeza de que amam. E de que são amados.
Estão juntos, é isso que importa. Existem quilômetros os separando. Mas em algum lugar de sonhos, que a mente não alcança, eles estão juntos. E sabem disso.
E sorriem.
