Sozinho com todo mundo
June 25, 2009
“Flesh cover
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh”
- Bukowski
Soube uma vez que fiz um cara querer ir pra cama comigo por recitar, bêbada, a poesia mais triste do Bukowski que conheço, num balcão sujo em Copacabana. Não era bem um cara, era um amigo, e soube porque só me contaram meses depois, mas até hoje não lembro de absolutamente nada.
Quer dizer, não foi uma amnésia alcoólica total, me lembro de recitar o poema e de não conseguir terminar de recitá-lo. Me lembro do banheiro sujo do bar, do balcão lotado e do meu amigo lá bebendo sozinho, me lembro de sentar num canto da calçada e de, depois, vomitar na beira da praia com ele me segurando. Mas não beijei ninguém naquela noite, não tenho a mais ligeira lembrança de ter chegado com os lábios mais próximos de algo que não fosse um copo de bebida naquele carnaval. Portanto, achava que só tinha feito uma cena patética de garota ébria. Nem imaginava as implicações.
Quem me contou o que havia acontecido, numa outra noite e num outro bar, foi ele mesmo. Não foi numa tentativa de ficar comigo de novo, ainda assim senti seus olhos entristecerem diante da minha total perplexidade. Só por um momento, eu sei, como uma sombra que é logo soprada pelo vento mas que ainda assim esteve lá. E ele me explicou o que houve, como eu cheguei com cara de paga-pra-ver e ele pagou, como ele sentiu essa vontade absurda quando eu parei um beijo e comecei a dizer que the flesh cover the bones and they put a mind in there and sometimes a soul e como eu me emputeci por esquecer dois versos, e fui embora e quinze minutos depois estava vomitando na sarjeta. Dizendo que se ele fosse muito escroto poderia ter se aproveitado de mim, mas não o fez. Eu senti vontade de explicar que acreditava nele porque sei que ele não seria capaz de abusar de mim bêbada, mas achei que não ia adiantar. Sei bem que posso ter ficado com ele, é uma coisa que eu não faço porque não acho que valeria a pena. Ele me dá uma boa companhia, mas não a companhia pra andar ao meu lado nas várias vezes em que sigo por caminhos dentro de pensamentos e dentro de mim mesma e sinto um distanciamento tão grande e crescente de todos. Ele poderia me dar uma boa foda sem compromisso e com algum sentimento, ainda que de amizade, mas meu deus, quando as pessoas vão perceber o quanto sexo, por mais que seja bom, não basta?
Voltamos no mesmo ônibus naquela noite, ainda falando sobre o mesmo assunto. Quando ele foi descer, alguns pontos antes de mim, tentou me dar um beijo na boca – eu desviei. Estava gostando de outro cara, ele sabia, embora achasse que “você é mulher demais praquele lá”. Não me importava o que ele ou mais ninguém pensava, eu tinha meus princípios e seguia-os da melhor forma possível. Além disso, ele que não percebia que não era homem suficiente pra mim.
Mas quando deitei a cabeça no travesseiro ao chegar em casa, me senti triste por ele. Antes, ele tinha como que um segredo comigo na forma de alguns beijos. Agora, tudo que ele tinha era o medo de que eu achasse que ele mentia ou que havia abusado de mim. E, pior, agora era como se os beijos que ele quis tanto não fossem mais reais. É preciso que alguém confirme uma coisa para acreditarmos nela, não se pode acreditar na realidade de algo que só acontece pra você. É uma esquizofrenia da realidade. Uma memória não-confirmada não difere tanto assim de uma lembrança inventada na qual se acredita o bastante.
Ainda com umas poucas cervejas na cabeça, a última coisa que lembrei antes de dormir foram dois versos tristes de um poema triste. Eram quatro e meia da manhã. São sempre quatro e meia da manhã.
[...] último mas não menos importante, num assunto mais legal, conto no Lua Minguante. Que essa coisa de escrever anda me animando – mesmo que esse conto em si já tenha um tempo, [...]