A Primeira Lembrança Na Qual Você Não Está
June 18, 2009
Ele sussurrou no meu ouvido: quero você raspadinha sexta, vou te chupar muito, faz isso pra mim?
Sexta-feira seria nossa primeira noite a sós, com a madrugada toda pela frente. Esperávamos ansiosos pela oportunidade em que finalmente nos veríamos livres de obrigações, viagens, burocracias de check-in e check-out, tempo contado e agarração escondida em escadas e banheiros. Seria, por assim dizer, nossa primeira noite juntos de verdade. Respondi baixinho que estaria do jeito que ele quisesse.
Nunca haviam me pedido algo assim tão específico antes. Normalmente eu tinha casinhos, sexo casual com gente que eu não queria que passasse mais 15 minutos na cama comigo depois de gozar. No fundo eu os odiava, e odiava em parte a mim mesma por deixar que eles me satisfizessem com tão poucos e insuficientes momentos de prazer e migalhas de atenção. Eu não moveria um dedo – ou, neste caso, um pentelho – para dar a algum deles um pedido desses. Queriam me comer, pois que comessem. Do jeito que eu estava e sob as minhas condições.
Só houve uma outra pessoa pela qual eu faria de tudo, e foi a que nunca me pediu nada. Não pedia por amor. Não, não era amor, era adoração. Amigos e conhecidos perguntavam que loucura eu estava fazendo, de me separar de um homem que me idolatrava e me colocava num pedestal de cristal, e minha vontade era de gritar que era exatamente por isso! Porque eu não era perfeita, era carne com pecados e queria, no fundo, pecar, mas pra ele eu era tão pura que ele guardava o impuro desejo pras putas, pras vadias que se insinuavam. Não foi pela traição que nosso relacionamento acabou, foi porque ele não me comia do jeito que comia as garotas de programa pelas quais pagava tão caro. E eu lá, em casa, recebendo jóias e perfumes e um pedido de desculpas quando ele me chamava de gostosa. Não que o sexo fosse ruim, mas não era o que eu queria. Deixava-me com um gosto doce demais na boca, de um doce que enjoa. Ah, se ele soubesse o quanto eu queria sentir o salgado do suor dele sobre mim. Ele cuja voz sempre ecoava na minha cabeça nos meus momentos mais sujos, como um corvo gritando “nunca terás”. Ou o amor que sentes ou o sexo que desejas, anunciava-me. Nunca entendi essa separação de mulher boa pra transar e mulher boa pra amar, mas ainda assim, era assombrada por essa constatação. Ou um, ou outro. Escolha.
E aí eis que me aparece, de onde eu não esperava que viesse nada, alguém que me olha com olhares de lobo. Num momento a gente discutia teorias de filósofos e conceitos físicos enquanto tomava um cappuccino, no momento seguinte ele me encostava com força contra a parede de um canto escuro e me chamava de tantos outros nomes pelos quais uma moça de família não deveria gostar de ser chamada. Eu não admitiria, mas adorava. Era a mulher inteligente e a boa companhia que ele apresentava aos amigos, e era uma putinha. A putinha dele.
Na quinta-feira, horário do almoço, andei no shopping até chegar a uma loja de departamentos feminina. Passeei na seção de moda íntima até encontrar o que procurava. Na volta pra casa, passei na farmácia. A noite, durante um banho quente e demorado, raspei faixa por faixa dos pelos encaracolados que me cobriam desde os doze anos, até não sobrar nenhum. De volta ao quarto, ainda nua e ainda com bastante calma, tirei as cutículas e passei camadas uniformes de esmalte nas unhas. Eu queria o ritual completo. Queria o frio na barriga e a sensação entre as pernas de antecipação que tem a noiva virgem na véspera do casamento. Sexta-feira de manhã me olhei no espelho antes de sair, primeiro para minha boceta agora pelada e depois para ela coberta pela pequena calcinha de rendas negras com a qual eu passaria o dia esperando por ele – esperando para que ele a tirasse. Em minha cabeça eu daria um sorriso para cada homem com o qual cruzasse na rua, como quem tem um segredo consigo mesmo. A noite, finalmente juntos, eu sentiria sua boca me mordendo e sua mão me agarrando os cabelos. Depois de meu primeiro orgasmo de verdade, poderíamos finalmente dormir abraçados como duas crianças fatigadas pelo resto da noite. Eu, com um gosto peculiar na boca. Não doce como baunilha. É chocolate. Meio-amargo.
Ele sussurrou no meu ouvido: quero você raspadinha sexta, vou te chupar muito, faz isso pra mim?
Sexta-feira seria nossa primeira noite a sós, com a madrugada toda pela frente. Esperávamos ansiosos pela oportunidade em que finalmente nos veríamos livres de obrigações, viagens, burocracias de check-in e check-out, tempo contado e agarração escondida em escadas e banheiros. Seria, por assim dizer, nossa primeira noite juntos de verdade. Respondi baixinho que estaria do jeito que ele quisesse.
Nunca haviam me pedido algo assim tão específico antes. Normalmente eu tinha casinhos, sexo casual com gente que eu não queria que passasse mais 15 minutos na cama comigo depois de gozar. No fundo eu os odiava, e odiava em parte a mim mesma por deixar que eles me satisfizessem com tão poucos e insuficientes momentos de prazer e migalhas de atenção. Eu não moveria um dedo – ou, neste caso, um pentelho – para dar a algum deles um pedido desses. Queriam me comer, pois que comessem. Do jeito que eu estava e sob as minhas condições.
Só houve uma outra pessoa pela qual eu faria de tudo, e foi a que nunca me pediu nada. Não pedia por amor. Não, não era amor, era adoração. Amigos e conhecidos perguntavam que loucura eu estava fazendo, de me separar de um homem que me idolatrava e me colocava num pedestal de cristal, e minha vontade era de gritar que era exatamente por isso! Porque eu não era perfeita, era carne com pecados e queria, no fundo, pecar, mas pra ele eu era tão pura que ele guardava o impuro desejo pras putas, pras vadias que se insinuavam. Não foi pela traição que nosso relacionamento acabou, foi porque ele não me comia do jeito que comia as garotas de programa pelas quais pagava tão caro. E eu lá, em casa, recebendo jóias e perfumes e um pedido de desculpas quando ele me chamava de gostosa. Não que o sexo fosse ruim, mas não era o que eu queria. Deixava-me com um gosto doce demais na boca, de um doce que enjoa. Ah, se ele soubesse o quanto eu queria sentir o salgado do suor dele sobre mim. Ele cuja voz sempre ecoava na minha cabeça nos meus momentos mais sujos, como um corvo gritando “nunca terás”. Ou o amor que sentes ou o sexo que desejas, anunciava-me. Nunca entendi essa separação de mulher boa pra transar e mulher boa pra amar, mas ainda assim, era assombrada por essa constatação. Ou um, ou outro. Escolha.
E aí eis que me aparece, de onde eu não esperava que viesse nada, alguém que me olha com olhares de lobo. Num momento a gente discutia teorias de filósofos e conceitos físicos enquanto tomava um cappuccino, no momento seguinte ele me encostava com força contra a parede de um canto escuro e me chamava de tantos outros nomes pelos quais uma moça de família não deveria gostar de ser chamada. Eu não admitiria, mas adorava. Era a mulher inteligente e a boa companhia que ele apresentava aos amigos, e era uma putinha. A putinha dele.
Na quinta-feira, horário do almoço, andei no shopping até chegar a uma loja de departamentos feminina. Passeei na seção de moda íntima até encontrar o que procurava. Na volta pra casa, passei na farmácia. A noite, durante um banho quente e demorado, raspei faixa por faixa dos pelos encaracolados que me cobriam desde os doze anos, até não sobrar nenhum. De volta ao quarto, ainda nua e ainda com bastante calma, tirei as cutículas e passei camadas uniformes de esmalte nas unhas. Eu queria o ritual completo. Queria o frio na barriga e a sensação entre as pernas de antecipação que tem a noiva virgem na véspera do casamento. Sexta-feira de manhã me olhei no espelho antes de sair, primeiro para minha boceta agora pelada e depois para ela coberta pela pequena calcinha de rendas negras com a qual eu passaria o dia esperando por ele – esperando para que ele a tirasse. Em minha cabeça eu daria um sorriso para cada homem com o qual cruzasse na rua, como quem tem um segredo consigo mesmo. A noite, finalmente juntos, eu sentiria sua boca me mordendo e sua mão me agarrando os cabelos. Depois de meu primeiro orgasmo de verdade, poderíamos finalmente dormir abraçados como duas crianças fatigadas pelo resto da noite. Eu, com um gosto peculiar na boca. Não doce como baunilha. É chocolate. Meio-amargo.
[...] contos?”. Essas coisas que a gente nem responde e que nem vale a pena responder. Chama-se A Primeira Lembrança Na Qual Você Não Está. É, no título eu não consegui me esconder, os meus são sempre os grandes [...]