Um relógio de você
January 29, 2009
“Minhas verdades estão nas mentiras que eu conto e minhas mentiras estão nas verdades que eu invento.”
Alexander Sousa (SHIMN)
13:45, começo a ficar ansiosa. Parecendo um lêmure com os ouvidos atentos a cada ruído vindo do canto onde fica a porta, cada vez que ouço um som me viro rápida mas discreta, porque eu quero ver mas não quero que me vejam. Eu sei, você só chega as duas, mas quem sabe pode chegar mais cedo. Ou talvez um pouco mais tarde. E ainda tem a variável de você vir falar comigo quando chegar ou não. Talvez, se nós tivermos deixado um assunto importante interrompido ontem, você venha fazer algum comentário à guisa de boa tarde. Talvez você não ache o assunto assim tão importante. Afinal, nós sempre temos um assunto ou outro interrompido e que nunca lembramos de retomar. São só pedaços de conversas, nos pedaços de tempo que eu tenho você.
Meu dia é dividido em horários – nos seus horários. De 13:45 até 14:15, sua chegada. Exatamente as 17:00h, com uma margem de meia hora para mais ou para menos, é a hora em que você vem na minha mesa perguntar se eu estou com fome, se quero que você traga alguma coisa pra comer do seu lanche na rua.
“Quero, traz um beijinho.”
“E aonde é que eu vou achar alguém vendendo doce?”
Doce, ai. O doce que eu quero é outro, tá? Eu já vejo todo dia, tá em algum lugar da sua boca, não quer trazer mais pra perto de mim não?
Você volta me trazendo um chocolate, já sabe qual é o meu preferido. E eu começo a contagem regressiva pra nossa próxima conversa: 19:30, seu horário de saída. Eu posso sair uma hora e meia mais cedo, mas você não sabe. Eu posso pegar meu ônibus muito mais rápido se não for pelo caminho que segue até o seu ponto, mas você também não sabe. Eu quero roubar cada cinco minutos que eu tiver pra estar ao seu lado, e disso você sabe menos ainda.
O centro da cidade hoje está um caos, a fila pro seu ônibus é algo inimaginável. E você não vai conseguir pegar um lugar sentado tão cedo, já vou avisando. Quem mandou morar longe? Tem um ônibus que vai praquele lado que sai da Praça XV, quer ir tentar lá?
Pronto, roubei mais cinco minutos, mas lá também está lotado e você sugere aquele que passa lá na Presidente Vargas. Vamos indo. Eu olho um bueiro pintado com a cara do pac-man no meio da calçada, você dá risada.
“Como é que você consegue ver essas coisas?”
Ah, meus olhos são grandes, tipo do lobo mau, são feitos pra ver. Que nem minha boca grande feita pra falar, só o que eu tenho de pequenininho é meu coração, que ao contrário de todo o resto, foi feito pra ser assim frágil, pra ser protegido. Mas dele eu não conto pra quase ninguém, o que todo mundo vê são só meus olhos. E com eles eu vejo cada coisa que nem te conto. Eu olho nos olhos das pessoas, olho bem fundo desse jeito, e consigo ver elas por dentro como se fosse um espelho, eu e meus olhos grandes. Consigo ver todos, menos você, garoto dos olhos de abismo. Aonde é que você se esconde?
Nós vamos passando e é claro que a Avenida também está toda parada. Ai meu Deus, como é que eu vou chegar em casa?, você pergunta. Não precisa chegar, fica aqui comigo, que eu fico andando na chuva fina com você a noite inteira, e seu ônibus nunca mais vai interromper nossas conversas, e minha casa vai ser qualquer lugar onde eu esteja contigo.
“Última tentativa. Tem um ônibus com ponto final na Praça Mauá, acho que de lá eu consigo um lugar.”
Então vamos. E no caminho passamos por tantos prédios, ruas e lugares, e de cada um deles eu vou contando uma coisa, e daqui você chega pra lá, e aqui aconteceu tal coisa, e eu acho tão legal isso de terem construído a avenida com a igreja da Candelária bem no meio, você não acha? E você me olha com esses seus olhos que eu não sei decifrar, me sorri com essa boca que eu não posso beijar e me diz “Nossa, que lugar você não conhece?”
“Não conheço aonde você mora.”
“Não, engraçadinha, to falando aqui do Centro.”
Ah, se você me levasse a sério. Se você ouvisse o que eu falo de verdade. Ou será que ouve, e fica só fingindo que não sabe, que não viu, que não é? Porque você ri quando passamos em frente a um hotel e eu te digo que olha, é mais fácil ficar aí mesmo, que sair do Centro hoje tá difícil, ri e me olha como quem pergunta o que eu quero dizer com isso. Quero dizer isso mesmo: quero que você fique, que eu fico junto e te roubo essa noite, te roubo a manhã seguinte, e quando você reparar eu já te roubei pra mim o resto da vida. Acha que eu estou de brincadeira? Paga pra ver.
“Chegamos. Olha lá o ônibus, já tá saindo!”
Você vai correndo e me deixa pra trás, meu tempo por hoje acabou. Entra no ônibus quando eu acabei de chegar no ponto, e só dá tempo de olha pelo vidro encardido enquanto o motorista fecha a porta. Eu faço cara de brava porque você nem se despediu de mim, e você balança os ombros e me joga um beijo.
São 20:15. Vou descer toda a rua de novo até poder pegar meu ônibus. Mas já começo a contar: dezessete horas e meia pra eu voltar a ser feliz.