Vampirinha
December 11, 2008
Os dentinhos dela batendo nos meus, é a primeira coisa que eu vejo. Não lembro como começou, quem agarrou quem, só sei que de repente estávamos nos beijando e os dentinhos dela batiam nos meus, e ela ria. Pulou pra cima de mim no sofá, e eu tive meu último ato consciente da noite, disse que não podíamos na sala. Ela quis me levar pro quarto. Apontei pro namorado sentado no computador a menos de cinco metros de distância, que tinha acabado de se virar e olhar pra nós. Ela levantou, foi com ele pro quarto, voltou menos de dois minutos depois. Ele saiu. Ela me puxou pela mão. Pra cama de casal.
Ela tirou a roupa e me ajudou a tirar a minha, e eu comecei a abocanhar os seios. Péssimo admitir, mas eu queria aquilo já desde muito tempo. Ah, depois de uma garrafa de vodca, que se foda a moral. Fiz com que ela deitasse, mas ela não me deixou ficar nem dois minutos inteiros naquela tentativa bêbada de sexo oral. Virou o jogo como só as mulheres sabem virar e começou a brincar comigo. E eu lá, com a mente entorpecida. O teto me encarava. Estava bom, mas o teto não parava de me encarar. Não era mais nem o teto que me encarava, era o maldito passado que não me deixava em paz, que não parava com aqueles olhos de reprovação. Reprovação vinda do olhar mais cheio de amor que eu já vi. Um olhar como o que ela e o namorado tinham, do qual eu me esforçava pra colher as migalhas. E agora olha eu aí, fazendo merda. Como tentar matar a sede com água do mar – quando mais você bebe, menos te sacia. Mais perto de morrer. Aqueles olhares não eram pra mim. O olhar do passado era pra mim.
Fiz esforço pra gozar, ela percebeu. “Are you crying?”, perguntou. Quando bebíamos conversávamos em inglês. Não respondi, mas virei o rosto. Não soluçava, também não gemia, era só a coisa mais natural do mundo: as lágrimas simplesmente rolavam. Ela me puxou pelo queixo. Não tentei esconder os olhos vermelhos. Olhou bem lá no fundo por uns longos quinze segundos. Depois, ainda me segurando pelo queixo, me deu um beijo que eu sabia que nunca mais receberia. Nos soltamos. “Você ainda pensa nele, né?”
Mal tive tempo suficiente pra respirar e ir pro banheiro. Não vomitei, por mais que quisesse. Só fiquei lá, abraçada como vaso, pensando no que é que eu estava fazendo da minha vida afinal. Pensando até quando aquele olhar ia continuar me encarando de dentro da minha cabeça. Imaginando as conseqüências da besteira eu tinha acabado de fazer com uma das minhas melhores amigas. E lembrando dele, dele, dele. Enfiei o dedo na garganta, nada. Enfiei de novo. Finalmente vomitei tudo aquilo. Continuei enfiando o dedo na garganta e vomitando até sair só água, bílis estomacal. Eu e ela, nós nunca falamos sobre o assunto. O namoro continuou como se nada tivesse acontecido. Quanto a mim, depois desse tempo todo ter passado, quase não vejo mais os olhos, mas também não encaro mais o teto. A partir daquela noite, sempre fico por cima. E nunca mais bebi.