A última volta

October 5, 2008

- Não quero entrar.

Não queria.

- Eu me conheço, não vai dar certo, não quero entrar.

Mas aqueles outros olhos. Aqueles, que não prometiam nada. Não declaravam nada. E tentavam não pedir nada. Mas no fundo daquele nada, ela sentia um resto pequeno, ínfimo, de vontade. De um pedido, mais desesperado por não querer ser um pedido. Quando olhava para cima, via uma promessa de beleza, céu azul e risadas que queria desesperadamente seguir. Olhando para baixo, via o que mais temia – de novo, talvez pior. E gritava pro alto:

- Não tenho medo!!

Tinha, um pouco. Tinha medo de si. Dos olhos, era só medo do desconhecido que eles representavam, da falta de promessas das quais precisava tanto.

E eles lá de novo. Estavam quase partindo, conformados como quem diz “não se preocupe, é o que todos fazem”. Foi aquilo que decidiu. Não queria o tratamento que todos davam, não queria agir como todos os outros. Embarcou.

A viagem começou devagar, naquela montanha-russsa maluca. Começou a subir, o frio no estomago começou a aumentar. Uma vez lá em cima, virou pro lado e viu aquele par de olhos, que tinham dentro deles algo inimaginável que só era visível naquela luz. Mais além viu o mundo. Viu tudo, quis tudo e teve tudo. E quando a descida começou, não houveram gritos. Sabia que não adiantava mais. Não adiantava porque, agora, seu maior temor era real de novo. Havia visto a beleza que ninguém mais via, e sabia que por ela, mesmo passando pelas voltas mais baixas, seguiria até o inferno se fosse necessário. E foi.

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