A ponte de Roosterspur
August 14, 2008
Ele foi meu primeiro amor, e até hoje é minha maior paixão, mesmo que nunca tenhamos nos beijado. Ou, talvez, exatamente por isso. O fato é que eu nunca o esqueci, e ele foi a comparação com todos os outros caras com os quais me envolvi, mesmo que as coisas tenham acabado do jeito estranho que acabaram.
Era uma noite de verão e ouvíamos discos de punk rock em minha casa. Quando foi ficamos tarde e começamos a pensar que era hora de ir embora, era um ir sem obrigação, sem querer se despedir das conversas e risadas… fomos até a casa dele, voltamos à minha, e com uma condescendência mútua demos as costas e simplesmente saímos por ai, esperando que nossas mãos esbarrassem sem querer no caminho e que o dia não amanhecesse nunca.
Ao menos, era o que eu queria.
Eu era apaixonada por ele desde que havíamos nos conhecido, anos atrás. Não sei como ou quando começou, mas sempre que paro pra pensar acho que foi a primeira vez que cruzamos os olhares na rua. Era como um hobby meu, andar procurando olhares. Mas as pessoas olhavam sempre para o chão em busca de pedras, ou viam algum objetivo que não as deixava olhar pro lado, ou abaixavam o olhar. Com ele, não. Ele não abaixou os olhos, e dentro daqueles olhos havia um abismo que eu só pude ver de relance. Depois viramos amigos, e ríamos e conversávamos, e eu sempre tentava descobrir o que havia no fundo daqueles olhos.
Andávamos por um caminho bonito e tranqüilo, mas mais bonito ainda era o som de nossa conversa. Éramos crianças, e ríamos pelo simples prazer de rir e de estarmos juntos. O mundo era belo, o mundo era nosso, haviam planos e o futuro e eu e ele. Até que chegamos a uma ponte, e embaixo daquela ponte o mundo todo se desfez. O tempo parou. E havíamos só nós dois, e a noite era infinita.
Nunca havia ficado só com um garoto, mas estar com ele não era estar só. E de repente nós nos calamos. E, pela última vez, eu olhei na imensidão daqueles olhos. E pude ver tudo. Os sonhos, os desejos, as façanhas, e no fundo daquele olhar eu não vi, eu senti, todo amor que havia por mim. Não sei explicar, e não explicaria se soubesse, mas eu vi. Sei que vi.
Então aconteceu o que até hoje eu não sei explicar. Eu pisquei, e de repente o mundo tinha voltado, e os olhos dele relampejaram e sumiram. Não os olhos, claro, mas o que havia no fundo dos olhos. Como se tivessem tirado o brilho, apagado a maravilha, aplainado o abismo.
Ele não me beijou aquela noite, e nossa conversa da volta não foi como eram as conversas de antes. Nossas mãos não esbarraram mais sem querer.
Depois daquele dia continuamos amigos, mas acabamos nos afastando. Outro dia desses, cruzei com ele na rua. Ele prestava atenção no caminho e nossos olhares não se cruzaram, e eu pensei eu chama-lo mas não o fiz. Era melhor assim mesmo. Aqueles não eram os olhos pelos quais eu havia me apaixonado… mas esses eu guardo como meu tesouro mais secreto, os olhos de abismo daquele garoto quando eu tinha treze anos. E tento desesperadamente encontrar um lampejo que seja daquele brilho em outros olhares. As vezes perco as esperanças e quase desisto, mas no dia seguinte a força sempre volta e eu busco mais do que nunca. Porque mesmo que seja difícil, existe. Eu sei. Eu vi. Não sei explicar, mas juro que vi.