Cinco Diálogos Pelos Bosques da Ficção
July 17, 2008
Boêmio
- Mas por que você está sempre solteiro?
- Sabe o que acontece? Vamos supor que eu conheça hoje uma mulher fantástica. Mas fantástica mesmo. Nós vamos nos conhecer, conversar, e eu vou voltar pra casa apaixonado. E no caminho de casa, vou ficar pensando em como seria se nós saíssemos sexta, e na sexta seguinte, e ela também se apaixonasse, e nós fossemos descobrindo aos poucos os defeitos e manias um do outro. E como seria nossa primeira noite juntos, quais seriam as taras dela, o cheiro do cabelo, o gosto da boca, o sorriso ao acordar. E imaginaria nossas brigas, os ciúmes meus e dela, as reconciliações, os medos, as decisões, talvez até filhos, gatos, cinemas de quarta e peças de teatro de sábado, e assim até que tudo acabe, por briga ou por idade. Passa pela minha cabeça tudo que pode acontecer.
- E qual é o problema?
- Sabe o que é? Eu odeio me repetir.
A Leoa
- E que tal o Edu?
- Ah, ele é simpático e tudo mais, mas não sei…
- Não sabe?
- Não sei.
- É porque ele não é o Leonardo, né?
- É, por isso também.
- Olha, a única diferença entre os dois é que o Edu também está a fim de você, e o Leonardo não.
- Também. Mas não é só isso. Não é que o Eduardo não seja interessante, acho que todas as pessoas são interessantes até que se prove o contrário. O problema é que tem muita gente que prova o contrário muito rápido. Eu tenho uma curiosidade absurda sobre o Leonardo, e não tenho essa curiosidade absurda pelo Edu.
- Não te entendo. E sabe por que não? Porque eu aposto qualquer coisa que se, um belo dia, o Leo começar a te dar bola e vocês começarem a sair, em uma semana você já enjoou e não quer mais ver a cara dele.
- Ah, não é verdade.
- É, sim. Porque foi assim com todos os outros antes do Leonardo, e provavelmente vai ser assim com os que vierem depois.
- Mas… o que eu posso fazer? Eu só sigo a minha natureza.
- E qual é a sua natureza?
- Eu os amo até que eles me amem
O Marinheiro
- Essa é a cidade mais linda que eu já vi.
- É maravilhosa mesmo. Mas não chega perto do litoral da Itália.
- Já esteve lá?
- Já. Fiz a costa italiana toda, agora estou subindo até a Irlanda, e de lá não sei.
- Nossa, e de onde você é?
- Originalmente, do Brasil. Estou viajando assim há mais de um ano.
- E pretende voltar?
- Algum dia, sim. Quando acabarem as praias do mundo.
- Isso quer dizer que não pretende voltar, não é?
- Não sei. Sinceramente, não sei.
- E já pensou em ficar em outro lugar?
- Fiquei tentado algumas vezes, mas não por mais de alguns dias. Essas vontades sempre vêm e vão com as marés. E, além do mais, eu não vou ao mesmo lugar duas vezes.
- E por que não?
- Já saiu para velejar sem rumo? As cidades são fantásticas. As cores em cada lugar são novas, os cheiros são diferentes, os gostos, rostos e vozes são desconhecidos e excitantes, e cada dia é uma maravilha. E é isso que fica com você. Mas, se há uma volta, as cores estão mais opacas e os risos são mais duros. Destrói-se uma lembrança, e elas eu não quero desperdiçar. Prefiro ter as coisas uma única vez, se esta vez for a primeira.
- E se acabarem as praias? Vai ficar aonde?
- No meio do mar, talvez. O mar é diferente a cada dia, então cada dia é o primeiro.
A Poetisa
- Não vai dar certo. Eu queria, mas não vai.
- Mas nós nem tentamos!
- Ainda não… mas veja só que situação ridícula: eu passei tanto tempo flertando, imaginando e sorrindo ao imaginar, que agora não vai dar certo.
- E isso lá tem algum motivo?
- De tanto criar isso em mim, criei e cresci medos também. Medos que me amputam os braços e pernas e emudecem minha boca.
- E quais medos são esses?
- Dois: o medo de que isso para você não seja nada de mais, e o medo de que seja algo a mais.
- Ué?
- Se não for nada de mais, eu vou ter me preparado para abrir novamente meu coração a toa, e ficará muito, muito mais difícil para a próxima vez que eu tentar. E se for algo de mais, eu posso descobrir que afinal não estava preparada e não conseguir aproveitar uma pessoa maravilhosa como você por medo e pressa, e neste caso eu não iria me perdoar.
- Eu não te entendo…
- Não tente… não vale a pena. Mas, antes de terminarmos o que nem começou, posso pedir a primeira e última coisa?
- Peça
- Me dá um beijo, só pra me matar a vontade
A Criação
- Mas, espera aí, você acha bonito isso?
- Oi?
- Você acha bonito isso? Personagens amedrontados, machucados, que acham que se esconder da realidade e passar a vida sozinhos com sua imaginação é ser feliz? Que isso é certo?
- Não acho bonito. Nem um pouco, aliás.
- Então, por que?
- Exatamente porque é horrível. Porque não deveria ser assim, porque a imaginação é bela e a ficção as vezes é tão imaginada que se torna real, mas não bate as coisas fantásticas que podem acontecer se nos dermos a chance. Mas, acima de tudo, porque isso tudo do qual você tanto reclama é dolorosamente e terrivelmente real.
- Real?
- Real, o que eu vou fazer?
- Faça algo! Grite, chute, brigue com essas pessoas.
- Não posso.
- E por que não?
- Porque não ia adiantar. Cada um tem que pular em seu próprio abismo.
- Isso me cheira a desculpa furada.
- Ah, vai, só um pouquinho.
- Anda logo, desembucha
- Tá. Eu não posso. Só porque eu odeio todos esses personagens… mas cada um deles também sou eu.