E na esquina da cidade histórica há um poeta que veio de longe, de onde só há cinza e os prédios sobem até aonde alcança a vista, que agora vê embasbacado a quantidade de cores em cada janela.

No meio de tantas cores, é o negro que chama a atenção ao longe: o negro de um vestido despontando pelas calçadas. Os cabelos também são negros, só os olhos que são azuis, mas tão azuis que deixariam sem graça o céu da cidade do poeta. Quanto ela passa pelo poeta, os olhares se cruzam meio sem jeito, mas nenhum dos dois abaixa os olhos. Ela pensa que nunca encontrou com alguém que não baixasse os olhos, e ele pensa que nunca cruzou com alguém que olhasse nos olhos. Ele conta exatos dez segundos e vira-se atrás dela.

Ela parece que não percebe, ou é simpática o suficiente para tal. O dia vai morrendo, o frio aumenta e o poeta observa o ritmo dos cabelos e decora o som dos passos. Ela pára na praça central, de frente para a igreja, e puxa um cigarro enquanto procura desajeitada por um isqueiro. Ele pensa que trocaria todos os poemas que já fez só para ter aquela cena imortalizada na cabeça: o vestido negro, os olhos azuis, a moldura da luz se pondo por trás da ponte e o som de gente pela rua. E o som dos saltos. De que adianta a rua sem ela? De que adiantam as cores sem a personagem principal? Naquele momento não havia passado, e todo o futuro estava em sua frente.

Quando ela se foi novamente, ele continuou aonde estava. Viu a silhueta dela diminuindo e o som morrendo ao longe, quando ela foi brincar com outras imaginações e maltratar outros corações devorando toda a poesia ao redor. Ficou acendendo e apagando um isqueiro de estimação, entrando e saindo da escuridão. Encostou, sentiu o frio da noite e um frio que não sabia de onde vinha e que o cobria como mortalha. Ouviu durante a noite toda o som de passos se afastando. E foi dormir, naquela noite, sem saber se o amor ajuda ou atrapalha.

One Response to “Saltos trituram corações pelas ruas de pedra”

  1. [...] compensar, um conto bem à toa hoje, mas enfim. É melhor que nada… ok, talvez não seja, mas enfim, a intenção [...]

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