Pequeno conto sobre o que nunca foi
June 12, 2008
Antônio e Antonieta. Fora o nome, eles não tinham mais nenhuma semelhança, ou assim o consideravam. Se conheceram durante um almoço de domingo no qual ela teve que acompanhar a irmã caçula, que ia passar a tarde na casa do então namorado. Ignorando os protestos pelo domingo perdido, a mãe simplesmente disse “você vai e pronto”, então ela foi e pronto. No fim das contas, o dia acabou sendo agradável: enquanto ela fingia que não estava vendo os risinhos e abracinhos da irmã e do cunhado, descobriu que a comida era estupenda e a conversa era boa. Tão boa que ela passou a ir mais vezes, e continuou a ir mesmo quando o namoro da irmã desandou. Tanto a irmã chorava e reclamava que ela parou de ir aos domingos, mas durante a semana de manhã, quando a irmã estava na escola, ela costumava passar pra dar um oi, acabava ficando pro café, e tanto papo ia e vinha que ela acabava só saindo dali na hora da sesta.
Eles conversavam principalmente sobre literatura. Ela ouvia, pegava livros emprestados, aos poucos aprendia a apreciar a história, não o final. Ele contava sobre as histórias, famílias antigas e grandes livros com capa vermelha e letras douradas. As vezes ela se pegava pensando antes de dormir em como seria bom ter tido um pai desses, mas se obrigava a lembrar que o pai não era dela. Não era, não era. Outras vezes, pequenos fantasmas apareciam em frases que ele falava, mas nunca por mais de dois segundos. Eram como sombras passando pelo rosto ao se pronunciar uma frase. Mas conforme o tempo passava, as sombras aumentavam.
Isso preocupava Antonieta, especialmente porque a cada dia e a cada almoço ela – que não passava dos vinte e poucos – sentia-se mais perto de um fim que não era o dela. As vezes, era um mal-estar. Outras, uma ligeira febre. Ambos sabiam o que ia acontecer, e quanto mais passava o tempo, mais tranqüilo ficava ele e mais inquieta ficava ela. Antonieta as vezes o via olhando pela janela ou acariciando o gato, e seu coração se agoniava como se fosse a vida dela que se esvaía.
Por uma semana ela se atolou de trabalho. Nem ao mercado não conseguiu ir direito, quanto mais fazer visitas. No dia seguinte era um feriado prolongado, e já era quase meia noite quando ela ia dormir e o telefone de casa tocou. Por um instante, ela pensou em não atender – era tarde e ela estava cansada. No terceiro toque, atendeu. Um minuto depois, ela desejou que nunca o tivesse feito. Que a notícia nunca tivesse chegado. Ou, principalmente, que aquilo nunca tivesse acontecido.
A noite inteira foi lembrando da última vez que o vira, duas semanas atrás. Ele estava gripado e disse tchau de longe, “pra não passar pra você”. Ela lembrava-se da paixão dele por clássicos norte-americanos, sobre o que eles tanto conversavam. Ele falou que é sempre bom estar lendo alguma coisa, pois se não fosse isso havia muita coisa ruim para se lembrar. Ela só conseguiu dormir de estafa, sobre um velho Steinbeck.
No dia seguinte ela sentou-se num canto da sala, enquanto entravam e saiam familiares que ela nunca havia visto antes. Não teve coragem de passar pela sala. Não enquanto estava lá a vida que ela gostaria de ter tido, que ela ainda podia ter, mas que já sabia como se encerrava. Encerramento… era injusto. Sempre fora injusto. Sempre seria. Os milhares de pensamentos invadiam-na e saiam como uma enchente pelos seus olhos, ela não conseguia controlar. Se encolhia e soluçava. Ao redor, rostos embasbacados encaravam a garota que quase ninguém mais da casa conhecia.
“Quem é essa que não pára de chorar?”
“Ninguém… não é ninguém”
Agora era ela que andava com sombras pelos olhos.