Deve Ter Alamedas Verdes (a Cidade dos Meus Amores)
June 5, 2008
Não que seja um fato exatamente novo, mas outro dia conheci um poeta pela rua. Acabo sempre atraindo esses tipos. Não me arrisco a escrever duas linhas em verso, mas acho que eles acabam me reconhecendo – a gente sempre se reconhece. Este chegou pra mim com um bolo de folhetos na mão, cada folheto com seu punhado de poemas. Me contou sua história: tinha vindo de São Paulo, subindo pelo litoral, sempre com os folhetos e a poesia. Ubatuba, Maresias, Paraty, até chegar ao Rio de Janeiro. Terminou me oferecendo o folheto em troca de algumas moedas, se eu pudesse – se não pudesse, que ficasse com os poemas assim mesmo.
Dei uma nota e coloquei o folheto em algum canto esquecido da bolsa. No dia seguinte, a caminho do trabalho, me peguei pensando no poeta. Havia sido corajoso, ele. Deixando tudo para trás só para sair andando, curtindo o vendo e conversando com o mar. Imaginava até onde ele iria. Talvez subir até Porto Seguro e de lá voltar pra África, ou continuar andando até descobrir aonde começa o mundo. Invejei um pouco tanto desprendimento, eu que também morro de vontade de pegar uma mochila e sair por ai, mas só vou se tiver certeza de que vou voltar. Me achei covarde.
Mas o pensamento de covardia durou pouco. Sai para almoçar de tarde, passeando pelo centro da cidade e observando cada detalhe dela. Havia os vendedores de quinquilharias, havia os camelôs gritando, havia uma roda em torno de humoristas que depois passavam o chapéu, havia o louco religioso que gritava a bíblia. Havia os rostos, e em cada rosto uma história. Um garoto loiro com uma camiseta azul clara passou na direção contrária e sorriu enquanto eu o olhava nos olhos. Isso as vezes acontece, e eu também sempre sorrio, porque ando pela rua tentando pescar um desses olhares, e é como no caso do poeta. Nós nos reconhecemos. São poucos os que andam na rua olhando nos olhos, e geralmente são os mesmos que andam olhando a rua, os becos, as pessoas. Esses são como eu, são como o poeta, são como o garoto de camiseta azul. A cidade nos pertence, não porque sejamos maioria em número, mas porque fazemos com que ela seja nossa. Reparamos nela. E a cidade, como a dama que é, nos recompensa mostrando suas belezas e singularidades que ninguém mais vê. Ou melhor, talvez até vejam. Mas não sabem enxergar.
Eu sou igual ao poeta, porque as cidades e as ruas são iguais – assim como são iguais mulheres e homens e animais. Todos querem um olhar de verdade, e tem gente que morre sem esse olhar. Amo as ruas daqui como amaria as ruas de Paraty, de Berlim, de Los Angeles, de Xangai. Amo porque observo, e a observação é maior do que o entendimento. Ninguém precisa entender o amor, ninguém precisa entender as ruas.
Foi só muito tempo depois que, por acaso, peguei novamente o folheto de poesias e o li, e foi um dos poucos folhetos de poesia do qual gostei. Num dos poemas, ele falava no “solitário pardal paulistano”. Li sinceridade nos versos deste que se chamava de pássaro do asfalto. Mais que isso, li os versos de quem é sincero com os lugares por onde passa – sincero no olhar. Fomos moldados do mesmo barro, feito de cinza e brilhantes, e haverá um lugar reservado a nós quando todas as cidades se forem. Enquanto isto não acontece, você será sempre bem vindo na cidade cuja Rua dos Aflitos e a Travessa dos Poetas de Calçada convivem em uma talvez não tão estranha harmonia.
[...] gostei muito do que consegui escrever, e aproveitando que hoje é quinta já está lá no Lua Minguante. E esse vem rendendo até ótimos bate-papos e alguns interessantíssimos dedos de [...]
Bem, eu sempre encontro um poeta na Augusta vendendo seus poemas. Ele pergunta “Gosta de poesia?” e eu sempre respondo “Obrigado”… sei que é meio ridículo, mas tenho medo de estranhos…