E não tem mais nada, negro amor
May 29, 2008
Meu tempo de intervalo não é lá muito longo, mas pra mim costuma ser o suficiente. São só quinze minutos, mas é o tempo de as vezes passar no banco com a esperança de ver algum dinheiro na conta, de comprar uma barrinha de chocolate do camelô, e finalmente de visitar as barracas de livros em frente ao metrô.
Eu sou viciada nas barraquinhas de livros. Tem umas quatro, mas eu vou mesmo em duas: uma com todos os livros por um real, a outra com livros por três, dois por cinco. Não costumo ter dinheiro pra gastar em nada, mas me engano pensando que, afinal de contas, é pouco dinheiro, é a mesma coisa da barrinha de chocolate. É preciso dar uma garimpada no meio das pilhas desorganizadas de livros pra poder encontrar algo bom, quando se tem algo bom, e é isso que eu costumo fazer nos meus quinze minutos de intervalo. É isso que estou fazendo hoje.
A barraca do Domingos é a com a seção de livros por três, dois por cinco. Ele já me conhece por nome, se eu quiser posso até levar o livro pra pagar quando tiver. Estou lá dando uma olhadinha em tudo, até que aparece um livro na minha frente: grande, novo em folha, e que eu tenho certeza que meu ex-namorado iria amar. Não posso evitar esse pensamento, e no instante seguinte me dou uma bronca mental por ficar pensando nele. Enquanto me dou a bronca, pergunto pro Domingos quanto é o livro. Digo pra mim mesma que estou sendo idiota, ao mesmo tempo em que ouço que o livro mesmo é vinte e cinco, mas se eu quiser levar ele faz por vinte. Me chamo de estúpida quando tiro o dinheiro da carteira – os únicos vinte reais que eu tinha, que deveriam ser pro fim de semana todo! – e volto ao trabalho levando aquele livro debaixo do braço. Penso que um dia desses eu entrego pra ele.
No dia seguinte, cheia de trabalho, resolvo sair um pouco mais cedo pra dar minha voltinha pelo centro da cidade, ver as pessoas saindo do trabalho, se aglomerando na rua, essa agitação sem fim. Geralmente isso me faz tirar a cabeça das coisas que eu tenho pra fazer e voltar mais relaxada. Passo no banco, passo na barraquinha de chocolate, dou uma olhada rápida nos livros, dou uma volta pra chegar ao prédio pelo lado contrário ao que eu geralmente vou pra poder ver a lua, que hoje está absolutamente linda. Enquanto estou andando em direção à entrada do prédio, vejo um grupo de quatro pessoas na minha frente. Respiro mais forte. Reconheço a mochila do cara mais à esquerda. E reconheço a blusa. Reconheço a bermuda. Reconheço aquelas costas, aquele cabelo, aquela nuca, aquele jeito de falar enquanto anda. Meus Deus, tudo menos isso.
Eu poderia me esconder. Eu poderia deixar ele andar na frente, passar do meu prédio e entrar logo depois. Ele nunca saberia. Eu nunca me perdoaria.
“Oi?”
Quando entro de novo no prédio, depois de ter trocado uma meia dúzia de palavras, não sei o que se passa comigo. A recepcionista pergunta o que houve, eu digo que não estou passando bem, minha pressão deve ter caído. Ela me dá um pouco de sal, cujo gosto eu nem percebo se é amargo ou doce. Sento na minha mesa, mas agora sim que o trabalho não saí. Vou ao banheiro e algumas lágrimas caem, não sei nem que cara fazer. Quero gritar, quero dar um soco na cara dele, quero ir pra casa, mas só vou pra casa daqui a duas horas e meia. O que me deixa mais puta é ter ficado abalada assim. Isso não devia acontecer, mas foi tão de surpresa! Tanta hora pra eu sair e dar uma volta, tanto lugar pra ele passar, porque tinha que ser logo assim?
Aos poucos o surto vai passando um pouquinho. Consigo agüentar até o horário de ir pra casa, consigo chegar em casa sem bater em ninguém que pisasse no meu pé. Chego, tomo um banho, e quando entro no quarto dou de cara com o livro que comprei pra ele ontem – e tenho vontade de queimá-lo, rasgá-lo, qualquer coisa. Sinceramente, não sei o que estava esperando. Talvez um telefonema, um e-mail, mas muito provavelmente esperava que ele olhasse pra mim e tudo voltasse a ser como antes. Tudo voltasse a ser como sempre deveria ter sido.
Sento nua na cama, olhando pro teto, solto um suspiro. Coloco o livro no colo, e vou lendo página por página. O telefone não toca. E a vida continua.
[...] 29, 2008 by agarota Sem duplo sentido (feliz ou infelizmente, a seu critério) pra falar do conto novo que na verdade é antigo no Lua [...]