Táticas de Guerrilha Contra Desastres Anunciados
May 22, 2008
Por que os finais são sempre tão previsíveis? Raras vezes vi um final realmente abrupto e que não vinha sendo anunciado com antecedência àqueles que quisessem ouvir. Nosso final foi assim, uma dessas tragédias premeditadas. Meses antes, eu sabia que íamos terminar, e você também, mas ainda tentávamos sem vontade fazer com que ficasse tudo bem.
Assim que percebi o que viria, a insônia que sempre foi sua passou para mim. Depois das conversas na cama cada vez mais curtas ou das noites de sexo cada vez mais raras, depois de uma hora sem conseguir dormir na companhia do seu silêncio, eu me punha a te observar. Seu rosto de criança dormindo, a pontinha da sobrancelha falhada, as maças do rosto, as olheiras abaixo dos olhos. Aquilo me dava paz, e ao mesmo tempo uma vontade brutal de chorar, por saber que aquela vez poderia ser a última – e que, se não fosse aquela, seria uma outra vez que também não demoraria muito.
Então, bolei um plano. A cada dia, a cada momento, eu passei a te olhar como se nunca houvesse visto antes, buscando decorar cada detalhe, do jeito de falar até a forma como os músculos dos seus braços se contraiam enquanto você secava o cabelo depois do banho. O formato das mãos – que cada dia seguravam menos as minhas – e o cheiro de pepsi com cigarro das seis horas da tarde.
Fui me apropriando de cada parte sua, aos poucos te guardando na memória. Nas madrugadas insones ficava te ouvindo respirar ao meu lado, e contava cada respiração como a batida de um relógio cujo tempo estava se acabando. Mas quanto mais o tempo se esvaía, mais eu te observava, até que finalmente veio o dia em que perdemos algo que já quase não existia. Acontece, é a vida. Sobrevivemos, afinal, por mais que os poetas digam, ninguém realmente morre de coração partido.
Mas me conformar, no fundo eu não me conformei. Não seria capaz de enterrar uma parte tão grande do que sou. E na hora em que tudo terminou, eu já tinha me apropriado tanto de você que sua ausência só existia fisicamente: você estava na minha cabeça, pra onde quer que eu fosse. Eu andava pela cidade fazendo diálogos com um amigo imaginário, desabafando com um pensamento, e toda noite antes de dormir era capaz de ver seu lugar na cama ocupado por um fantasma que lentamente respirava um ar frio por debaixo dos lençóis.
Infelizmente, duas coisas eu não consegui guardar. Uma delas foi seu calor, pois por mais perfeita que minha imagem seja, ela é fria, e as vezes eu sinto esse frio por mais que me enrole em cobertas antes de dormir. A segunda coisa foi o seu beijo, que até hoje eu procuro sem sucesso em outras bocas. Mas não me importo. Um dia, eu sei, assim que eu deitar na cama, seu fantasma virá com seu abraço gelado e me envolverá, e puxando pelo queixo me dará o beijo que eu perdi. E tudo será como deveria ter sido. E eu saberei que não preciso mais acordar.
[...] só pra terminar, depois de duas semanas relapsas, atualizei o Lua Minguante: Táticas de Guerrilha Contra Desastres Anunciados. O último mote foi propício, eu diria, e sentia falta dessa catarse que são pra mim as pequenas [...]