Sexta feira 13. Que irônico. Tu planejou isso também, foi? Não duvido. Minimalista do jeito que era… sempre pensando nos detalhes. Feliz agora? Dez anos que tu me abandonou caindo numa sexta feira 13. O mundo é realmente sarcástico, ahn?
Droga, sem cigarros. Tudo bem, vou lá comprar outro maço, aproveito e tomo um pouco de ar. Faz bem, o ar noturno. Pelo menos é o que dizem. Espero que seja, aí eu posso compensar: o ar noturno anulando mais algumas tragadas de nicotina para os meus pulmões, para me matar lentamente. Quem liga para morrer, afinal? Eu ligo é pros meus cigarros.
“Vê um maço de Lucky Strike”
“Taí chefia”
“Valeu”
Bom e velho Lucky. “Jogada da sorte”. Cada cigarro, um tiro a mais numa roleta russa. Algum dia eu acerto. Meu Deus, até meu cigarro é sarcástico.
Uma puta na esquina de casa, grande. Tudo que eu precisava pra completar minha noite.
“Ei, tem fogo?”
Saco o isqueiro e acendo o cigarro que ela trazia apagado entre os dedos. Afinal, um pouco de fogo não custa nada. Ela usa uma mini saia jeans, um salto enorme e uma meia calça rasgada, fazendo conjunto com uma blusa vermelha gasta e nem um pouco sexy, mas que deve atrair clientes, os peitos quase pulando pra fora. Tem um jeito de perdida. Bom, que vá se perder em outro quarteirão, faz favor.
Mas aí ela puxa um trago, e as brasas do cigarro iluminam seu rosto por um momento. Puta que o pariu. Uma cara de viciada, um cabelo horrivel, mas nem em duas vidas eu ia esquecer daquela cara.
Vontade de explodir, de gritar, de te bater. De exigir explicação. Dez anos, porra! Dez anos! Eu tinha 25, tu tinha 21, e um dia a beldade simplesmente saiu de casa, só saiu, não disse nada, e foi embora. Sumiu. E eu acreditava em você, acreditava na porra do amor, e você foi embora e aparece dez anos depois como puta na esquina da minha casa.
“E aí, tá a fim de alguma coisa hoje, bonitão?”
Você não me reconhece. Deve ser a barba. Nem minha mãe reconheceria depois de todo esse tempo, se estivesse viva, eu acho. Ou então tu tá louca demais pra reconhecer qualquer coisa na tua frente.
“Tô a fim sim. Que você vá se foder e me deixe em paz.”
Meto as mãos no bolso e desço a rua até o portão de casa. Quando entro, o telefone está tocando. caralho, o que me falta agora?
“Alô”
“Oi, é o Paulo”
“Ah, fala cara”
“Ué, que que aconteceu? Tua voz tá estranha”
“Nada não, acabei de ver um fantasma. Mas diz aí, o que manda?”
“Eu tava chamando uns caras pra sair hoje pra beber, o que acha?”
“Sempre pronto”
“Daqui a uma hora naquele boteco da última vez, sabe qual é?”
“Lembro sim. Até lá”
Troco de camiseta, e em menos de quinze minutos estou pronto. Vou chegar mais cedo, beber até cair. Hoje, eu mereço.
Acendo mais um cigarro.
Vadia.
[...] como hoje é quinta e eu não consegui escrever, vai um conto beeem antigo pro Lua Minguante. [...]