O que vem é perfeição

April 17, 2008

Era domingo, mais cedo do que ele gostaria de estar acordado em um domingo. Mas lá estava. Com a mãe, na igreja, com a chuva ameaçando lá fora ao invés de estar deitado na cama se recuperando de uma ressaca qualquer.

Não sabia bem porquê resolvera fazer a vontade da mãe justamente hoje. Ela sempre pedia, um “filho, me leva na igreja” meio tímido, meio sabendo que ele arrumaria uma desculpa qualquer e empurraria a tarefa pra irmã, e dessa vez tanto ela quanto ele ficaram surpresos quando ele disse “ta mãe, que horas?”. “A missa começa as sete”, ela respondeu tímida, e ele concordou antes de se dar conta de que isso significava acordar pelo menos as seis.

No dia, ele realmente levantou as seis, tomou um banho frio – de manhã, só conseguia tomar banhos frios –, fez a barba e colocou um agasalho contra a garoa matutina. A mãe já estava pronta há muito, e lá se foram. No caminho, ninguém falou, e quando chegaram ela desceu do carro e já estava falando “me pega as oito e meia” quando ele desligou o motor.

“Você vai entrar também?”

“Não, mas eu espero aqui fora”

Ficou realmente do lado de fora, na porta de entrada da igreja simples de São Brás, que ele não sabia nem que era santo, fumando eventualmente e vendo os gatos correrem com as crianças do lado de fora, enquanto trechos do sermão do padre se faziam ouvir eventualmente. Falava sobre a perfeição de Deus e a imperfeição do homem, sobre confiança nos desígnios maiores, sobre sonhos e visões. Fazia muito, muito tempo que ele não assistia uma missa, nem ouvia trechos de uma. Quando foi mesmo a última vez? Pensou e lembrou da primeira comunhão, com o pai esperando lá fora do mesmo jeito que ele estava agora. O mesmo pai cuja missa de sétimo dia ele esteve presente, mas não ouvia nem assistia nada. Se bem que de relance pareceu lembra-se de alguma coisa sobre a mesma perfeição dos desígnios divinos.

Era a perfeição que o colocava lá hoje? A perfeição que o deixava sozinho pelas ruas, no meio de todas as pessoas sentindo-se como a olhar um aquário? A perfeição que matara seu pai, que agora matava sua mãe com a idade, que ia lhe tirando tudo em que ele acreditava?

O orvalho ia secando e o sol ia esquentando. O padre lá dentro falava, falava e falava, e ele ia divagando, navegando por um rio de memórias. A missa finalmente estava chegando ao fim. Quando ela acabou, a mãe o encontrou parado na porta, ainda pensando. Tocou-lhe o braço e, vendo-o tão absorto em pensamentos, perguntou sorridente: “foi um lindo sermão, não foi?”

Ele viu-a sorrir, as rugas de sempre ao redor dos olhos de sempre, olhos que já haviam sofrido mais do que até Deus deveria saber, e viu-a linda, viu-a jovem, viu-a com mais esperanças e menos medos do que ele próprio.

“É, foi ótimo”

Aquele padre não sabia nada de perfeição. A mãe dele é que sim.

4 Responses to “O que vem é perfeição”

  1. [...] E falando nisso, coloquei um post novo no Lua Minguante. [...]

  2. kuinzytao said

    Perfeição é quando eu quero ler de novo, para entender mais um pouco. Como nesse caso.

  3. Carol said

    Perfeição foi esse conto! \o/

  4. eL cABAL said

    Esse título veio de Perfeição do Legião ?
    Venha que o que vem é perfeição!!

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