Ladrões
April 10, 2008
Clarisse Lispector roubava rosas. Liesel roubava livros. Eu, roubo momentos. Compulsoriamente.
Não sei dizer quando ou onde começou, apesar de conseguir lembrar de momentos roubados desde quando eu tinha uns 14 anos. No começo, era algo automático, eu nem percebia o que estava fazendo. Com o tempo, percebi que as pequenas epifanias das quais eu tanto gostava poderiam ser mais freqüentes, se eu me dispusesse a procurar. Se eu quisesse olhar.
No começo era uma coisa aqui, outra ali. Um sol passando através de uma folha, a cor verde-translúcida-transparente. O jeito como as poças brilhavam por conta do sol de depois da chuva. O cheiro de abacaxi vendido na rua que entrava pela janela do ônibus com o vento e vinha bater na minha cara. Outro dia, fui fazer uma viagem e passei quase ela inteira olhando para a paisagem da janela. Enquanto todos viam o filme de bordo, um arco-íris se formou do lado de fora. Pronto. Roubei.
Então comecei a roubas pessoas também. Momentos de quando elas não estão olhando, de quando sorriem na rua, de quando andam juntas debaixo da chuva. Ando de ônibus na janela e em todos os pontos que ele pára eu fico olhando para as pessoas. Quase sempre, acabo olhando nos olhos de alguém e alguém nos meus. O ônibus arranca, os olhares ficam para trás. E eu sempre sorrio.
Um dia desses, eu estava deitada ouvindo música na nova instalação do CCBB, vendo o tempo passar. Crianças de passeio escolar vieram e foram, e eu roubei duas garotinhas que deitaram perto de mim para minha coleção. As crianças tinham acabado de ir embora quando percebi uma moça que tirava fotos de tudo. Algum trabalho de artes, legal, eu imaginei. Mas parece que o tal trabalho de artes incluía fotos das pessoas que apreciavam a instalação. Começou a tirar fotos bem de onde eu estava. Ninguém ao meu lado parecia notar.
Ora, veja bem. Quando você está acostumado com um lado, é estranho se ver do outro. Pensei em sair, ou em pelo menos pedir à garota uma cópia da foto para ver como tinha ficado, ou perguntar para que era. Mas foi só o pensamento. Senti que ela era igual a mim, e que o resultado ia ficar bonito. Deixei pra lá.
Mas cinco minutos depois, a garota deitou ao meu lado. Virou-se um pouco e começou a tirar fotos dos outros bancos. Eu via seus ombros, sua mão mexendo no visor da máquina, parte de seus cabelos. Não tive dúvidas. Não costumo tirar fotos, guardo meus tesouros na memória, mas as vezes abro uma exceção. Tirei o celular do bolso, virei discretamente. Uma foto da fotógrafa.
Ela virou-se depois, e acho que percebeu. Tenho certeza que pensou em falar comigo, para ver a foto ou saber para quê era, mas também não o fez. Quando se levantou para ir embora, me deu um sorriso. Eu retribui. Estávamos quites agora. Ladrão que rouba ladrão, afinal, tem lá o seu perdão.
Fotos são sempre fotos…
Um belo meio de roubar coisas ou pessoas…
Queria ter coragem de roubar alguém…
(obs: sou o mesmo Breno que escreve o Super nada, mesmo… Isso se você lembrar que existe um blog com esse nome…)