Assim sem você
July 9, 2009
Hoje em dia, ler poemas de amor não me enche mais os olhos d’água. E os contos eu acho bonitos porque sempre apreciei a beleza na melancolia, já que eu a conheci bem antes de conhecer você. Vejo grandes histórias de amor como quem vê um lugar no qual já esteve muito tempo atrás e foi bom, e só sente na boca o gosto um pouquinho triste por aquele lugar não existir mais. Isso e a nota amarga do cigarro que acabei de fumar na janela. A instituição “nós” deixou de existir, e hoje em dia ouço as antigas músicas e penso em como éramos inocentes, mesmo você que de inocente nunca teve nada. Éramos crianças lidando com um amor de adulto – nosso amor já nasceu velho, de outras vidas e outros continentes. Era algo bonito de ver.
Sinto-me bem por saber que senti tanto, que vivi tanto, que vivíamos mesmo separados por milhas e milhas. O primeiro homem a me ver como uma mulher de verdade, a me desejar como se deseja uma mulher, a me amar como só um cafajeste ama quando encontra aquela que nasceu pra ser dele e ele nasceu pra ser dela. Como eu sei que fui sua e como eu sei que você era meu.
Não quero parecer nostálgica, mas a nostalgia é isso, deixar passar e relembrar. Não se incomode achando que penso em você hoje, pois eu penso em você de anos atrás. Quando deito no Arpoador vendo o sol morrer é em outros nomes, bocas e beijos que penso, quando sorrio no ônibus é imaginando um garoto de menos cabelo e sorriso mais largo. Mas quando ouço falar de amor de verdade, só consigo pensar nesses dois adolescentes descobrindo como crianças uma arte mais velha que o sol. Erramos tanto e de tantas formas, mas erramos por não saber acertar. E aprenderemos a acertar com outras pessoas, sentindo outros gostos e ouvindo outras risadas, ou talvez não vamos aprender nunca. Mas não importa, agora que nossa história é apenas mais uma história que quase ninguém se lembra mais.
Porque agora não me incomoda nem o fato de você não me incomodar mais. Talvez seja assim que as coisas aconteçam. A gente não amadurece, a gente endurece. Então deixa o Apocalipse vir de novo e a tempestade virar nosso barco. Deixa a música tocar. Que toque de novo, enquanto o tempo passa e esquecemos um do outro, uma última música em homenagem a um homem que eu não conheço mais.
Sozinho com todo mundo
June 25, 2009
“Flesh cover
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh”
- Bukowski
Soube uma vez que fiz um cara querer ir pra cama comigo por recitar, bêbada, a poesia mais triste do Bukowski que conheço, num balcão sujo em Copacabana. Não era bem um cara, era um amigo, e soube porque só me contaram meses depois, mas até hoje não lembro de absolutamente nada.
Quer dizer, não foi uma amnésia alcoólica total, me lembro de recitar o poema e de não conseguir terminar de recitá-lo. Me lembro do banheiro sujo do bar, do balcão lotado e do meu amigo lá bebendo sozinho, me lembro de sentar num canto da calçada e de, depois, vomitar na beira da praia com ele me segurando. Mas não beijei ninguém naquela noite, não tenho a mais ligeira lembrança de ter chegado com os lábios mais próximos de algo que não fosse um copo de bebida naquele carnaval. Portanto, achava que só tinha feito uma cena patética de garota ébria. Nem imaginava as implicações. Read the rest of this entry »
A Primeira Lembrança Na Qual Você Não Está
June 18, 2009
Ele sussurrou no meu ouvido: quero você raspadinha sexta, vou te chupar muito, faz isso pra mim?
Sexta-feira seria nossa primeira noite a sós, com a madrugada toda pela frente. Esperávamos ansiosos pela oportunidade em que finalmente nos veríamos livres de obrigações, viagens, burocracias de check-in e check-out, tempo contado e agarração escondida em escadas e banheiros. Seria, por assim dizer, nossa primeira noite juntos de verdade. Respondi baixinho que estaria do jeito que ele quisesse.
Nunca haviam me pedido algo assim tão específico antes. Normalmente eu tinha casinhos, sexo casual com gente que eu não queria que passasse mais 15 minutos na cama comigo depois de gozar. No fundo eu os odiava, e odiava em parte a mim mesma por deixar que eles me satisfizessem com tão poucos e insuficientes momentos de prazer e migalhas de atenção. Eu não moveria um dedo – ou, neste caso, um pentelho – para dar a algum deles um pedido desses. Queriam me comer, pois que comessem. Do jeito que eu estava e sob as minhas condições. Read the rest of this entry »
Confissões de um quase herói
May 28, 2009
Mamãe e Papai sempre quiseram que eu fosse especial, justo, defensor de todos que precisassem de algum tipo de defesa. Eles mesmos davam aulas sobre ética em casa enquanto eu aprendia judô na escolinha, porque afinal alguém sempre se precisa de uma proteção contra os terríveis bandidos. Minhas festas de aniversário eram sempre com temas de super-heróis. Me davam gibis do Super-Homem e alugavam os filmes do Batman. Queriam que eu fizesse pelo menos uma boa ação por dia, e toda noite antes das histórias com moral que eu ouvia antes de dormir, eu tinha que contar a eles qual fora a boa ação de hoje. Do mesmo jeito que alguns pais consultam uma palavra por dia no dicionário e tornam aquela a “palavra do dia”. “Altruísmo: ajudar sem querer nada em troca”. “Bom: moralmente correto em suas atitudes”. “Coragem: falta de medo, audácia”. Essas interpelações noturnas só não eram completamente inúteis porque me faziam pensar e inventar coisas novas dia após dia – meu grande segredo era que, no fundo, eu estava é me lixando pra tudo isso. Quando crescesse, queria mesmo é ser arquiteto.
Um relógio de você
January 29, 2009
“Minhas verdades estão nas mentiras que eu conto e minhas mentiras estão nas verdades que eu invento.”
Alexander Sousa (SHIMN)
13:45, começo a ficar ansiosa. Parecendo um lêmure com os ouvidos atentos a cada ruído vindo do canto onde fica a porta, cada vez que ouço um som me viro rápida mas discreta, porque eu quero ver mas não quero que me vejam. Eu sei, você só chega as duas, mas quem sabe pode chegar mais cedo. Ou talvez um pouco mais tarde. E ainda tem a variável de você vir falar comigo quando chegar ou não. Talvez, se nós tivermos deixado um assunto importante interrompido ontem, você venha fazer algum comentário à guisa de boa tarde. Talvez você não ache o assunto assim tão importante. Afinal, nós sempre temos um assunto ou outro interrompido e que nunca lembramos de retomar. São só pedaços de conversas, nos pedaços de tempo que eu tenho você.
Meu dia é dividido em horários – nos seus horários. De 13:45 até 14:15, sua chegada. Exatamente as 17:00h, com uma margem de meia hora para mais ou para menos, é a hora em que você vem na minha mesa perguntar se eu estou com fome, se quero que você traga alguma coisa pra comer do seu lanche na rua.
“Quero, traz um beijinho.”
“E aonde é que eu vou achar alguém vendendo doce?”
Doce, ai. Read the rest of this entry »
Vampirinha
December 11, 2008
Os dentinhos dela batendo nos meus, é a primeira coisa que eu vejo. Não lembro como começou, quem agarrou quem, só sei que de repente estávamos nos beijando e os dentinhos dela batiam nos meus, e ela ria. Pulou pra cima de mim no sofá, e eu tive meu último ato consciente da noite, disse que não podíamos na sala. Ela quis me levar pro quarto. Apontei pro namorado sentado no computador a menos de cinco metros de distância, que tinha acabado de se virar e olhar pra nós. Ela levantou, foi com ele pro quarto, voltou menos de dois minutos depois. Ele saiu. Ela me puxou pela mão. Pra cama de casal.
A última volta
October 5, 2008
- Não quero entrar.
Não queria.
- Eu me conheço, não vai dar certo, não quero entrar.
Mas aqueles outros olhos. Aqueles, que não prometiam nada. Não declaravam nada. E tentavam não pedir nada. Mas no fundo daquele nada, ela sentia um resto pequeno, ínfimo, de vontade. De um pedido, mais desesperado por não querer ser um pedido. Quando olhava para cima, via uma promessa de beleza, céu azul e risadas que queria desesperadamente seguir. Olhando para baixo, via o que mais temia – de novo, talvez pior. E gritava pro alto:
- Não tenho medo!!
Tinha, um pouco. Tinha medo de si. Dos olhos, era só medo do desconhecido que eles representavam, da falta de promessas das quais precisava tanto.
E eles lá de novo. Estavam quase partindo, conformados como quem diz “não se preocupe, é o que todos fazem”. Foi aquilo que decidiu. Não queria o tratamento que todos davam, não queria agir como todos os outros. Embarcou.
A viagem começou devagar, naquela montanha-russsa maluca. Começou a subir, o frio no estomago começou a aumentar. Uma vez lá em cima, virou pro lado e viu aquele par de olhos, que tinham dentro deles algo inimaginável que só era visível naquela luz. Mais além viu o mundo. Viu tudo, quis tudo e teve tudo. E quando a descida começou, não houveram gritos. Sabia que não adiantava mais. Não adiantava porque, agora, seu maior temor era real de novo. Havia visto a beleza que ninguém mais via, e sabia que por ela, mesmo passando pelas voltas mais baixas, seguiria até o inferno se fosse necessário. E foi.
Dorme um escorpião em minha cama
September 25, 2008
Conheci Alicia por acaso, por um amigo em comum numa festa qualquer. Eu redator e ela cineasta. Eu um cara que sempre teve azar com as mulheres, e ela com aquele jeito de quem passou e vai passar a vida toda com uma fila de homens em seu encalço, e sem nem ligar pra isso.
Viramos colegas, porque tudo que eu me atrevia a desejar dela era amizade. Uma noite tínhamos ido a um barzinho perto da minha casa com amigos, e um desses amigos ficou bêbado de dar dó. O cara estava sentado do lado dela. Na hora que a gorfada veio, adivinha?
- Puta que pariu, Reinaldo! Minha saia!!!
Essa moça tá diferente…
September 11, 2008
Agora era assim. Ela andando por aí, dona do nariz, nariz esse que já tinha até furo de piercing, de bolsa a tiracolo – cadê a mochila? -, tatuagem, pescoço à mostra e uma auto-confiança de fazer virarem cabeças na rua. Ela ia, sorrindo sozinha, ninguém sabia de quê mas todo mundo olhava. Olhavam. E imaginavam. Ela, minha menina.
Não me lembro bem qual dia foi o último em que a vi, nem o último assunto do qual falamos. Mas me lembro de quando ela era criança e medrosa, e só ia nos brinquedos que giraram de ponta cabeça ou caíam ou rodavam rápido demais se eu estivesse ao lado. Ou da vez em que seu cabelo, que era enorme e ondulado, difícil de lidar, ficou todo enrolado e não havia santo que penteasse. Ela passou mais de uma hora sentada numa cadeirinha e eu passei mais de uma hora em pé, desembaraçando aquela massa de cabelo enquanto fazia sol lá fora e as crianças todas brincavam. Quando terminou, ela saiu com o couro cabeludo vermelho feito tomate, e eu saí com as mãos duras e as pernas doendo. Me disseram uma vez que uma das personificações de carinho é pentear o cabelo de alguém. É.
Quando ela foi crescendo eu detesto admitir, mas morria de ciúmes. Os irmãos, se deixasse, vinham me visitar todo final de semana, mas ela não. “Tenho que fazer um trabalho da escola”. Ou então, “vamos na casa do Fulano ver um filme”, ou nem me falava nada, eu só descobria quando passava na casa deles pra buscá-los e ela já havia saído. Parecia desprezo, e isso dói no coração de um pai, sabe? E eu, além de tudo, virei pai muito cedo, e lidar com crianças sempre foi fácil, mas com mini-adultos a coisa complica… então o que me restava fazer era agir como se nada estivesse acontecendo, como se ela nem fizesse falta. Birra mesmo, pô, vou fazer o que? Mendigar atenção pruma pirralha de treze anos? Nas poucas vezes que ela aparecia, eu brincava sobre ela estar distante, pra ver se ela se tocava e percebia a falta que fazia. Como dá pra perceber, acho que não deu muito certo.
A ponte de Roosterspur
August 14, 2008
Ele foi meu primeiro amor, e até hoje é minha maior paixão, mesmo que nunca tenhamos nos beijado. Ou, talvez, exatamente por isso. O fato é que eu nunca o esqueci, e ele foi a comparação com todos os outros caras com os quais me envolvi, mesmo que as coisas tenham acabado do jeito estranho que acabaram.
Era uma noite de verão e ouvíamos discos de punk rock em minha casa. Quando foi ficamos tarde e começamos a pensar que era hora de ir embora, era um ir sem obrigação, sem querer se despedir das conversas e risadas… fomos até a casa dele, voltamos à minha, e com uma condescendência mútua demos as costas e simplesmente saímos por ai, esperando que nossas mãos esbarrassem sem querer no caminho e que o dia não amanhecesse nunca.
Ao menos, era o que eu queria.