Eu nasci cega. Eu vivi cega. Eu morri cega.
Não me incomodava viver em meus pensamentos sem os estímulos visuais, pois nunca os tive, e mesmo que entendesse o conceito do que era esta visão que todos tinham e que diziam que me faltava, era uma compreensão teórica e vazia. Como, por exemplo, se eu tentar te explicar uma cor nova. Não uma mistura do vermelho, amarelo e azul e nem uma nuance de qualquer outra cor secundária ou terciária. Uma cor totalmente nova. Que não se parece com nenhuma outra cor reconhecida pelos seus olhos. Você consegue entender o conceito, mas nunca vai conseguir imaginar o que estou querendo dizer. E, também, não vai sentir a menor falta.
É impossível descrever meu espanto, a falta de ar, o coração preso na garganta quanto, pela primeira vez, minha escuridão habitual foi dando lugar a uma luz clara e forte que vinha de longe e crescia cada vez mais em minha direção, quando essa luz clara começou a se aproximar e mudar, quando tive pela primeira vez a sensação de uma represa que de repente jorra uma torrente de cores e luzes e brilhos e sensações em direção ao meu cérebro. Se tivesse que me equilibrar, acho que com certeza teria caído. Mas não havia cima, baixo, lado ou outro lado, havia apenas cores e mais cores, e eu no meio delas todas, chocada, me sentindo atacada, pensando se a morte não tinha me colocado em um castigo eterno de ser atacada incessantemente por coisas aterrorizantes e desconhecidas. Levei um tempo até começar a perceber limites e me dar conta de que as coisas confusas deviam ser a visão de que todos falavam, já que as cores e profundidades combinavam com o que eu estava acostumada a tocar.
Demorei a aprender a apreciar tudo que agora podia perceber. No começo buscava ficar de olhos fechados e bloquear ao máximo possível tudo aquilo de estranho lá fora, gritava revoltada se não podiam ao menos terem deixado tudo como era antes, como me era confortável, do jeitinho com o qual eu já estava acostumada. Mas, não! E quando eu abria os olhos era de novo o choque e o turbilhão. Mas eu não podia passar a eternidade com os olhos fechados. Então, aos poucos, fui deixando entrar um pouco de luz por entre as pálpebras semi-cerradas. Passei a olhar um pouco pro céu. A ver quantos tons diferentes uma única árvore possuía. E, como se a distância não fosse problema, passei a visitar lugares com vistas cada vez mais estonteantes, a ver grandes peças de arte que me despertavam emoção, a aprender como diferenciar a cor do asfalto antes e depois da chuva.
Tudo isso, enquanto eu dormia. Read more…
Porque eu tenho o costume de acordar cedo, já pelas oito e meia da manhã meu organismo silenciosamente se rebela contra o fato de ser domingo e de eu querer continuar na cama até pelo menos meio dia e meia. E entre um sonho interrompido e o trocar de lado pra cair num outro espasmo curto de imaginação, meus olhos ainda sonolentos te vêem assim de lado com a boca meio aberta, um rosto tão sério que é tão diferente do seu normal e ao mesmo tempo tão de criança, que é tão você e ao mesmo tempo não é.
E eu fico me perguntando se todo mundo quando dorme fica com um ar infantil no rosto, ou se isso são só coisas que eu vejo por estar com sono e por te amar tanto. Ver você dormindo assim com tanta tranqüilidade faz com que algo dentro de mim me faça acreditar você só está dormindo tão bem porque sabe que a qualquer momento vai poder esticar o braço e me puxar mais pra perto, e nossas peles vão se tocar e nossos cheiros vão se misturar como se misturam nossos planos, sonhos e desejos. Mais tarde, quando eu adormecer sem você está noite, com alguma sorte ainda vai ter algum resto do seu cheiro no travesseiro. E isso não me serviria de nada se não fosse pra lembrar da cena de agora, seus ombros recortados contra a parede branca e iluminados pela luz que insiste em entrar filtrada pela cortina. Read more…
Meu nome não é Julieta. Chamo-me Gabriela. E, na verdade, não tenho nada em comum com a clássica personagem de Shakespeare, além do fato de, com ela, ter me apaixonado por um Romeu.
Os pais dele sempre foram românticos, amantes da literatura. Ele também. Sempre escreveu contos, romances, chegava a arriscar uns poemas vez ou outra – só quando a coisa fica feia, dizia. Já eu sempre preferi os números, as fórmulas e equações. Passei pra faculdade pública, no curso de Física, com 18 anos. Com 23 estava no Mestrado. Uma pesquisadora e cientista, desde cedo. Enquanto ele, romântico, evasivo, já havia começado duas faculdades e passado seis meses viajando pelo litoral do Brasil, antes que eu terminasse a minha primeira graduação. Todo mundo dizia que nunca ia dar certo. Eu sabia que nunca ia dar certo. Antes do nosso primeiro beijo, eu perguntei a ele:
- Você acha que existe alguma chance disso dar certo?
E a resposta eu já sabia, claro, vinda da boca dele:
- Não vai, mas vai ser divertidíssimo. Read more…
age is no crime
but the shame
of a deliberately
wasted
life
among so many
deliberately
wasted
lives
is.
- Charles Bukowski
Você pensa que a dor de morrer é grande, não é? Ah, existem tantas dores maiores. Existem tantos prazeres menores. Read more…
Meu nome é Nicholas. E, tenho que admitir desde o começo, sempre tive um coração mais mole de pudim de leite de vó. Por isso, acho que fica até compreensível eu dizer que, um dia desses, eu estava caminhando pela rua, cuidando da minha vida, quando a vi. Magrinha, um pouco pequena pra sua raça, provavelmente mestiça, e com uns olhos mais tristes que passarinho engaiolado e mais solitários que uma cobra no deserto. Não resisti. Me aproximei e, dentro de poucos minutos e de um ou outro afago, estávamos a caminho de casa.
A adaptação foi um pouco difícil, mas com muito carinho e atenção, logo estabelecemos uma rotina simples na casa pequena mas com um bem arborizado jardim em que vivíamos apenas os dois. Sempre fazíamos as refeições no mesmo horário, e no finzinho do dia haviam longos passeios por um parque lá perto.
Até que, como sempre acontece com as rotinas confortáveis, algo aconteceu. Read more…
Há quanto tempo eu não levanto meu olhar do chão?
Hoje, depois de muito tempo, me pus a observar a paisagem por uns bons vinte minutos, sem me importar se o telefone ia tocar lá dentro ou se alguém ia me chamar pra fazer algo urgente. Assim, só olhando, encostada na janela. Ouvindo os sons da rua. Vendo as velhas levando seus cachorros pra passear e os adolescentes barulhentos voltando da escola. Tinha um senhor, também, de cabelos poucos e brancos, numa janela do outro lado da rua, observando tudo. Olhando pro horizonte. Meu olhar seguiu o dele.
Não me lembro quanto foi a última vez que foquei meus olhos no horizonte. Mas deve fazer, já, bastante tempo. Meus óculos são novos, mas a distância ainda assim ficou borrada, inatingível, quase efêmera. Talvez fosse a luz. Talvez fosse algum reflexo de calor. Ou talvez fossem apenas meus olhos desacostumados.
Era incomodo ficar olhando praquela direção, e ainda assim eu continuei. Não podia acreditar que eu havia me perdido tanto, que eu havia perdido o horizonte que sempre guiou meus passos e me deu vontade de andar. O que mais eu perdi e nem reparei? Quanto tempo ainda vou levar pra recuperar tudo? Se é que são coisas que dá pra recuperar.
Respostas que só se tem com o tempo são, para mim, as piores de se obter. Já fui mais paciente do que sou hoje, mas isso também se foi. Pelo jeito, será a primeira coisa a ter que voltar, já que a outra opção é ignorar as perguntas e simplesmente deixar pra lá tudo que perdi. E isso eu não posso deixar de lado. O que me sobra, se eu mesma não me reconhecer mais?
Terei de novo paciência. Olharei para o horizonte até que meus olhos se acostumem de novo. Vou desenterrar todo o lixo que eu mesma joguei em cima de mim, até que minhas mãos sejam visíveis de novo, até que meu peito possa respirar em paz novamente.
Mesmo que demore, eu vou me achar outra vez.
Eu faço versos como quem chora
De desalento… de desencanto…
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.
- Manual Bandeira
Lá fora o céu está cinza e chove uma garoa fina e insistente desde as horas da madrugada. Aqui dentro, também é tudo cinza e chuvoso. Não dentro do quarto onde estou, seca, quente e confortável, mas dentro de mim tudo é chuva e cinza e incômodo. Parece que dentro de mim sempre há a chuva e o incômodo.
Eu busco acalanto em poetas mortos que não me conhecem, e tudo que eles dizem é que talvez eu não seja a única pessoa do mundo com essa vastidão de melancolia por dentro. Não sei o quanto isso me alivia ou não. Mas também, não sei o que exatamente eu busco em todos eles – os poetas vivos, os mortos, os contistas e cronistas e músicos e romancistas e também nos amigos, nas pessoas presentes, nas ausentes, nos que eu amo e nos que eu tento amar. Talvez uma resposta, mas ao quê, eu não sei dizer. A explicação sobre tudo, a lógica por trás das coisas que acontecem, o porquê a gente tem que passar por tudo dessa forma e se sentir desse jeito. Eu busco em humanos respostas que talvez nem o céu possa me dar.
No meio do meu mundo interior onde chove sem parar, parece que eu tudo tem uma palavra grande e em letras garrafais, que me grita sempre “INCOMPLETO” e “IMPOSSÍVEL”, duas palavras que me doem mais que qualquer outra coisa, talvez menos só do que saber que todas as minhas perguntas nunca vão ser respondidas.
E os “porquês” vão sendo jogados na minha frente, um depois do outro, e eu vou lendo sobre amores impossíveis, desejos impossíveis, mais e mais fomes que me parece que nunca foram saciadas, e penso se ainda existe esperança pra mim em algum lugar.
Em algum lugar, parece que algumas pessoas se encontraram. Na tamanha simplicidade do Caeiro, que me diz que pensar incomoda como andar na chuva e que pensar é estar doente dos olhos. E um aviador com nome de santo me diz que aprendeu, um dia, que as flores são contraditórias e que sempre se corre o risco de chorar um pouco pra ganhar algo. Eu, as vezes eu choro muito. Talvez isso queira dizer que eu também tenha ganho bastante coisa. Talvez. Não custa pensar positivo.
Afinal, mesmo que todos os dias sejam de chuva, nem todos eles são cinzas. Alguns tem sol, e a água clareia as cores e faz o verde das árvores ficar mais verde, ou o aconchego do abraço ficar mais quente, e por um momento talvez dá pra pensar que não vale a pena mesmo ficar se perguntando tanto sobre tudo, e que talvez até valha a pena sofrer um tanto assim em troca de certos sorrisos. Quem sabe? Eu não sei. Sei só que uma paisagem seca não me saciaria, então talvez seja mesmo pra eu aprender a lidar com os dias cinzentos. Talvez haja um par de olhos que possa embalsamar minha solidão de vez em quando.
Talvez eu vá morrer fazendo perguntas, mas ainda assim dizendo que valeu a pena.
Quem sabe? Resta acreditar.
E então que essa garota, no auge dos seus catorze anos, num dia que pra ela não foi tão belo assim, perdeu seu brinco preferido. Não os dois, o que teria sido ainda mais triste mas talvez mais aceitável, mas apenas um. E ela não sabia se tinha sido culpa da empregada, se havia sido a própria bagunça do seu quarto ou se o gato num dia de arrelia jogara o pobre brinco pra detrás do armário, tudo que ela sabia era que a impossibilidade, aquele dia, estava na forma de um único brinco prateado. Não que o brinco fosse realmente de prata, ou que fosse caro ou que tivesse uma história muito importante – era só um brinco desses de barraca de camelô, mas que ela adorava. E que, agora, não usaria mais.
Ela, como eu disse, era apenas uma garota, mas mesmo as garotas de quatorze anos já têm algo dentro de si que as faz completamente mulheres, assim como mesmo as mulheres mais sérias têm dentro de si uma garotinha que volta eventualmente numa risada no parque ou enquanto elas tomam um milk-shake. E a mulher dentro da garota a impediu de se desfazer do brinco viúvo. Da mesma forma que a impediu de se desfazer, mais tarde, do colar com pingente de estrela ganho do namorado e que arrebentou o cordão. Ou daquele prendedor de cabelo que ela pegou emprestado da melhor amiga da sétima série e nunca mais devolveu. Tudo isso e muitos outros pequenos souvenires, guardados dentro de uma caixa metálica de colomba pascal roubada antes da mãe jogar fora. Read more…
É natal. Véspera. Reunião de família, ceia, árvores, presentes.
Ela não pensa nos presentes. Toda vez que alguém tenta, em vão, atiçar sua curiosidade, ela responde baixinho: o que eu queria, já ganhei mesmo.
Ele anda atarefado. Ajuda a mãe na cozinha – gosta de cozinhar, quer ser chef algum dia – fazem bolinho de bacalhau, rabanada.
Ela ouve as tias falando, mas não escuta.
Ele coloca pratos demais na mesa, mas nem percebe.
Pensam um no outro. Não adianta tentar evitar, a idéia volta, insistente. Ela se pergunta se ele está pensando nela. Ele se pergunta se ela vai lembrar dele. No fundo, ambos sabem a resposta.
Ele se inquieta. Lembra dos beijos, de olhar nos olhos. Por dentro, a saudade o machuca, aperta, deixa sem fôlego. A mãe o chama na cozinha, ele volta à realidade.
Ela pensa em tudo que aconteceu, tão pouco tempo atrás. Pensa no rosto dele, nas músicas, nas coisas sussurradas ao ouvido. Sufoca-lhe a nostalgia, ela acorda e volta ao seu mundo.
Que idade eles tem, quantos anos? Quinze, dezesseis, vinte, cinqüenta, cinco mil? Nada disso importa agora.
Importa o momento, aquele momento mágico, em que os pensamentos se encontram e ambos tem uma súbita e clara certeza: certeza de que amam. E de que são amados.
Estão juntos, é isso que importa. Existem quilômetros os separando. Mas em algum lugar de sonhos, que a mente não alcança, eles estão juntos. E sabem disso.
E sorriem.
E agora, você está indo embora. E eu tenho que te abraçar sem chorar, voltar pra casa sem olhar pra trás e sair com nossos amigos como se não houvesse esse pedaço vazio de um metro e setenta andando ao meu lado.
Eu não desejaria outra coisa, entretanto. É seu sonho, sua vida, e eu jamais seria capaz de fazer algo que não fosse te apoiar pra ir em busca dos seus desejos, assim como você sempre fez pra mim. Fomos assim desde o começo e assim seríamos no final. Você me ajudou a planejar, economizar nos jantares, escolher a vista e decorar os quartos do meu apartamento com varanda e eu te ajudei a organizar os documentos, ajeitar os papéis, traduzir as cartas de recomendação e escolher as roupas de frio pra você ir fazer seu mestrado na Inglaterra. Este sempre foi o certo nas nossas cabeças tão diferentes do resto do mundo, mas tão iguais entre nós. Nunca achei que encontraria alguém assim igual. Deveríamos viver nossas vidas e aproveitar ao máximo enquanto os nossos caminhos estivessem juntos, e vivemos e aproveitamos. Mas uma parte de mim, a parte de mim que nunca soube lidar com partidas e perdas, mesmo sabendo que a vida é feita delas, ainda tinha uma vaga esperança de que no fim das contas nossos caminhos acabassem sendo os mesmos por todo o tempo.
Não foram. Read more…
