Boêmio

- Mas por que você está sempre solteiro?

- Sabe o que acontece? Vamos supor que eu conheça hoje uma mulher fantástica. Mas fantástica mesmo. Nós vamos nos conhecer, conversar, e eu vou voltar pra casa apaixonado. E no caminho de casa, vou ficar pensando em como seria se nós saíssemos sexta, e na sexta seguinte, e ela também se apaixonasse, e nós fossemos descobrindo aos poucos os defeitos e manias um do outro. E como seria nossa primeira noite juntos, quais seriam as taras dela, o cheiro do cabelo, o gosto da boca, o sorriso ao acordar. E imaginaria nossas brigas, os ciúmes meus e dela, as reconciliações, os medos, as decisões, talvez até filhos, gatos, cinemas de quarta e peças de teatro de sábado, e assim até que tudo acabe, por briga ou por idade. Passa pela minha cabeça tudo que pode acontecer.

- E qual é o problema?

- Sabe o que é? Eu odeio me repetir.

A Leoa

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E na esquina da cidade histórica há um poeta que veio de longe, de onde só há cinza e os prédios sobem até aonde alcança a vista, que agora vê embasbacado a quantidade de cores em cada janela.

No meio de tantas cores, é o negro que chama a atenção ao longe: o negro de um vestido despontando pelas calçadas. Os cabelos também são negros, só os olhos que são azuis, mas tão azuis que deixariam sem graça o céu da cidade do poeta. Quanto ela passa pelo poeta, os olhares se cruzam meio sem jeito, mas nenhum dos dois abaixa os olhos. Ela pensa que nunca encontrou com alguém que não baixasse os olhos, e ele pensa que nunca cruzou com alguém que olhasse nos olhos. Ele conta exatos dez segundos e vira-se atrás dela. Read the rest of this entry »

Antônio e Antonieta. Fora o nome, eles não tinham mais nenhuma semelhança, ou assim o consideravam. Se conheceram durante um almoço de domingo no qual ela teve que acompanhar a irmã caçula, que ia passar a tarde na casa do então namorado. Ignorando os protestos pelo domingo perdido, a mãe simplesmente disse “você vai e pronto”, então ela foi e pronto. No fim das contas, o dia acabou sendo agradável: enquanto ela fingia que não estava vendo os risinhos e abracinhos da irmã e do cunhado, descobriu que a comida era estupenda e a conversa era boa. Tão boa que ela passou a ir mais vezes, e continuou a ir mesmo quando o namoro da irmã desandou. Tanto a irmã chorava e reclamava que ela parou de ir aos domingos, mas durante a semana de manhã, quando a irmã estava na escola, ela costumava passar pra dar um oi, acabava ficando pro café, e tanto papo ia e vinha que ela acabava só saindo dali na hora da sesta. Read the rest of this entry »

Não que seja um fato exatamente novo, mas outro dia conheci um poeta pela rua. Acabo sempre atraindo esses tipos. Não me arrisco a escrever duas linhas em verso, mas acho que eles acabam me reconhecendo – a gente sempre se reconhece. Este chegou pra mim com um bolo de folhetos na mão, cada folheto com seu punhado de poemas. Me contou sua história: tinha vindo de São Paulo, subindo pelo litoral, sempre com os folhetos e a poesia. Ubatuba, Maresias, Paraty, até chegar ao Rio de Janeiro. Terminou me oferecendo o folheto em troca de algumas moedas, se eu pudesse – se não pudesse, que ficasse com os poemas assim mesmo.

Dei uma nota e coloquei o folheto em algum canto esquecido da bolsa. No dia seguinte, a caminho do trabalho, me peguei pensando no poeta. Havia sido corajoso, ele. Deixando tudo para trás só para sair andando, curtindo o vendo e conversando com o mar. Imaginava até onde ele iria. Talvez subir até Porto Seguro e de lá voltar pra África, ou continuar andando até descobrir aonde começa o mundo. Invejei um pouco tanto desprendimento, eu que também morro de vontade de pegar uma mochila e sair por ai, mas só vou se tiver certeza de que vou voltar. Me achei covarde.

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Meu tempo de intervalo não é lá muito longo, mas pra mim costuma ser o suficiente. São só quinze minutos, mas é o tempo de as vezes passar no banco com a esperança de ver algum dinheiro na conta, de comprar uma barrinha de chocolate do camelô, e finalmente de visitar as barracas de livros em frente ao metrô.
Eu sou viciada nas barraquinhas de livros. Tem umas quatro, mas eu vou mesmo em duas: uma com todos os livros por um real, a outra com livros por três, dois por cinco. Não costumo ter dinheiro pra gastar em nada, mas me engano pensando que, afinal de contas, é pouco dinheiro, é a mesma coisa da barrinha de chocolate. É preciso dar uma garimpada no meio das pilhas desorganizadas de livros pra poder encontrar algo bom, quando se tem algo bom, e é isso que eu costumo fazer nos meus quinze minutos de intervalo. É isso que estou fazendo hoje.
A barraca do Domingos é a com a seção de livros por três, dois por cinco. Ele já me conhece por nome, se eu quiser posso até levar o livro pra pagar quando tiver. Estou lá dando uma olhadinha em tudo, até que aparece um livro na minha frente: grande, novo em folha, e que eu tenho certeza que meu ex-namorado iria amar. Não posso evitar esse pensamento, e no instante seguinte me dou uma bronca mental por ficar pensando nele. Enquanto me dou a bronca, pergunto pro Domingos quanto é o livro. Digo pra mim mesma que estou sendo idiota, ao mesmo tempo em que ouço que o livro mesmo é vinte e cinco, mas se eu quiser levar ele faz por vinte. Me chamo de estúpida quando tiro o dinheiro da carteira – os únicos vinte reais que eu tinha, que deveriam ser pro fim de semana todo! – e volto ao trabalho levando aquele livro debaixo do braço. Penso que um dia desses eu entrego pra ele. Read the rest of this entry »

Por que os finais são sempre tão previsíveis? Raras vezes vi um final realmente abrupto e que não vinha sendo anunciado com antecedência àqueles que quisessem ouvir. Nosso final foi assim, uma dessas tragédias premeditadas. Meses antes, eu sabia que íamos terminar, e você também, mas ainda tentávamos sem vontade fazer com que ficasse tudo bem.

Assim que percebi o que viria, a insônia que sempre foi sua passou para mim. Depois das conversas na cama cada vez mais curtas ou das noites de sexo cada vez mais raras, depois de uma hora sem conseguir dormir na companhia do seu silêncio, eu me punha a te observar. Seu rosto de criança dormindo, a pontinha da sobrancelha falhada, as maças do rosto, as olheiras abaixo dos olhos. Aquilo me dava paz, e ao mesmo tempo uma vontade brutal de chorar, por saber que aquela vez poderia ser a última - e que, se não fosse aquela, seria uma outra vez que também não demoraria muito. Read the rest of this entry »

Sexta-feira 13

May 1, 2008

Sexta feira 13. Que irônico. Tu planejou isso também, foi? Não duvido. Minimalista do jeito que era… sempre pensando nos detalhes. Feliz agora? Dez anos que tu me abandonou caindo numa sexta feira 13. O mundo é realmente sarcástico, ahn?

Droga, sem cigarros. Tudo bem, vou lá comprar outro maço, aproveito e tomo um pouco de ar. Faz bem, o ar noturno. Pelo menos é o que dizem. Espero que seja, aí eu posso compensar: o ar noturno anulando mais algumas tragadas de nicotina para os meus pulmões, para me matar lentamente. Quem liga para morrer, afinal? Eu ligo é pros meus cigarros. Read the rest of this entry »

Night of blues

April 24, 2008

Vai ser assim:

De noite, você vai chegar no nosso apartamento. O apartamento é no último andar, e tem uma sala espaçosa e um pedaço como uma varanda coberta, onde nossos gatos adoram ficar e onde dá pra ver a cidade durante a noite. O dia foi longo, mas finalmente é sexta. Read the rest of this entry »

O que vem é perfeição

April 17, 2008

Era domingo, mais cedo do que ele gostaria de estar acordado em um domingo. Mas lá estava. Com a mãe, na igreja, com a chuva ameaçando lá fora ao invés de estar deitado na cama se recuperando de uma ressaca qualquer.

Não sabia bem porquê resolvera fazer a vontade da mãe justamente hoje. Ela sempre pedia, um “filho, me leva na igreja” meio tímido, meio sabendo que ele arrumaria uma desculpa qualquer e empurraria a tarefa pra irmã, e dessa vez tanto ela quanto ele ficaram surpresos quando ele disse “ta mãe, que horas?”. “A missa começa as sete”, ela respondeu tímida, e ele concordou antes de se dar conta de que isso significava acordar pelo menos as seis. Read the rest of this entry »

Ladrões

April 10, 2008

Clarisse Lispector roubava rosas. Liesel roubava livros. Eu, roubo momentos. Compulsoriamente.

Não sei dizer quando ou onde começou, apesar de conseguir lembrar de momentos roubados desde quando eu tinha uns 14 anos. No começo, era algo automático, eu nem percebia o que estava fazendo. Com o tempo, percebi que as pequenas epifanias das quais eu tanto gostava poderiam ser mais freqüentes, se eu me dispusesse a procurar. Se eu quisesse olhar. Read the rest of this entry »