A última canção de ninar
September 10, 2009
E então que essa garota, no auge dos seus catorze anos, num dia que pra ela não foi tão belo assim, perdeu seu brinco preferido. Não os dois, o que teria sido ainda mais triste mas talvez mais aceitável, mas apenas um. E ela não sabia se tinha sido culpa da empregada, se havia sido a própria bagunça do seu quarto ou se o gato num dia de arrelia jogara o pobre brinco pra detrás do armário, tudo que ela sabia era que a impossibilidade, aquele dia, estava na forma de um único brinco prateado. Não que o brinco fosse realmente de prata, ou que fosse caro ou que tivesse uma história muito importante – era só um brinco desses de barraca de camelô, mas que ela adorava. E que, agora, não usaria mais.
Ela, como eu disse, era apenas uma garota, mas mesmo as garotas de quatorze anos já têm algo dentro de si que as faz completamente mulheres, assim como mesmo as mulheres mais sérias têm dentro de si uma garotinha que volta eventualmente numa risada no parque ou enquanto elas tomam um milk-shake. E a mulher dentro da garota a impediu de se desfazer do brinco viúvo. Da mesma forma que a impediu de se desfazer, mais tarde, do colar com pingente de estrela ganho do namorado e que arrebentou o cordão. Ou daquele prendedor de cabelo que ela pegou emprestado da melhor amiga da sétima série e nunca mais devolveu. Tudo isso e muitos outros pequenos souvenires, guardados dentro de uma caixa metálica de colomba pascal roubada antes da mãe jogar fora. Read the rest of this entry »
Conto de um Natal de 2003
September 3, 2009
É natal. Véspera. Reunião de família, ceia, árvores, presentes.
Ela não pensa nos presentes. Toda vez que alguém tenta, em vão, atiçar sua curiosidade, ela responde baixinho: o que eu queria, já ganhei mesmo.
Ele anda atarefado. Ajuda a mãe na cozinha – gosta de cozinhar, quer ser chef algum dia – fazem bolinho de bacalhau, rabanada.
Ela ouve as tias falando, mas não escuta.
Ele coloca pratos demais na mesa, mas nem percebe.
Pensam um no outro. Não adianta tentar evitar, a idéia volta, insistente. Ela se pergunta se ele está pensando nela. Ele se pergunta se ela vai lembrar dele. No fundo, ambos sabem a resposta.
Ele se inquieta. Lembra dos beijos, de olhar nos olhos. Por dentro, a saudade o machuca, aperta, deixa sem fôlego. A mãe o chama na cozinha, ele volta à realidade.
Ela pensa em tudo que aconteceu, tão pouco tempo atrás. Pensa no rosto dele, nas músicas, nas coisas sussurradas ao ouvido. Sufoca-lhe a nostalgia, ela acorda e volta ao seu mundo.
Que idade eles tem, quantos anos? Quinze, dezesseis, vinte, cinqüenta, cinco mil? Nada disso importa agora.
Importa o momento, aquele momento mágico, em que os pensamentos se encontram e ambos tem uma súbita e clara certeza: certeza de que amam. E de que são amados.
Estão juntos, é isso que importa. Existem quilômetros os separando. Mas em algum lugar de sonhos, que a mente não alcança, eles estão juntos. E sabem disso.
E sorriem.
Eu que nunca aprendi a dizer adeus
August 27, 2009
E agora, você está indo embora. E eu tenho que te abraçar sem chorar, voltar pra casa sem olhar pra trás e sair com nossos amigos como se não houvesse esse pedaço vazio de um metro e setenta andando ao meu lado.
Eu não desejaria outra coisa, entretanto. É seu sonho, sua vida, e eu jamais seria capaz de fazer algo que não fosse te apoiar pra ir em busca dos seus desejos, assim como você sempre fez pra mim. Fomos assim desde o começo e assim seríamos no final. Você me ajudou a planejar, economizar nos jantares, escolher a vista e decorar os quartos do meu apartamento com varanda e eu te ajudei a organizar os documentos, ajeitar os papéis, traduzir as cartas de recomendação e escolher as roupas de frio pra você ir fazer seu mestrado na Inglaterra. Este sempre foi o certo nas nossas cabeças tão diferentes do resto do mundo, mas tão iguais entre nós. Nunca achei que encontraria alguém assim igual. Deveríamos viver nossas vidas e aproveitar ao máximo enquanto os nossos caminhos estivessem juntos, e vivemos e aproveitamos. Mas uma parte de mim, a parte de mim que nunca soube lidar com partidas e perdas, mesmo sabendo que a vida é feita delas, ainda tinha uma vaga esperança de que no fim das contas nossos caminhos acabassem sendo os mesmos por todo o tempo.
Não foram. Read the rest of this entry »
Um brilho distante qualquer
August 13, 2009
Amarrei a bicicleta num poste de luz em frente ao seu prédio, ainda surpreso pelo convite para subir. Você sempre foi o mais simpática possível comigo, e oficialmente não teria mesmo motivo para não ser. Na frente de todos, continuamos sendo os bons colegas que sempre fomos. Mas os todos nunca souberam como é quando a gente se encontra pelos corredores da faculdade, os dois namorando com outras pessoas, e a tensão que se forma entre nós, que embrulha meu estômago e que eu sei que também revira o seu. Por isso eu achava que, dessa vez, você viria me entregar o que eu vim buscar, dar dois beijinhos na bochecha e tchau. Read the rest of this entry »
Romãs à meia noite
August 6, 2009
Nasci com um coração singular. Desses que aparecem raras vezes a cada geração e que estão sempre destinados à infelicidade. Ou, ao menos, dos que não estão destinados à felicidade completa. Pois meu pecado é querer tudo – sem termo, limite ou medida, como poucas vezes se quis.
Não confundam meu querer com a mistura de nostalgia e dúvida que dá na maioria dos seres ao pensar nos caminhos diferentes que poderiam ter tomado, aquela de quando você pensa que se tivesse feito isso ao invés daquilo, teria mudado sua vida totalmente e teria feito com que você fosse, hoje, mas feliz, mais bem sucedido, possivelmente mais rico e mais de bem com a vida. Essas são indagações que uma hora ou outra todos fazem, quando questionam suas escolhas e seus rumos. Eu não me questiono. Não mudaria nada da vida que ia escolhendo pra mim a cada dia, ela toda sempre foi vivida da melhor forma possível. O que sempre me agonizou não era pensar em quem eu poderia ter sido, e sim querer estar em muitos lugares ao mesmo tempo, viver muitas vidas ao mesmo tempo, conhecer todos os idiomas, presenciar todas as cenas, sentir todos os gostos, amar todos os canalhas e sofrer como sofrem todas as mães, as dos bons e maus filhos. Read the rest of this entry »
Assim sem você
July 9, 2009
Hoje em dia, ler poemas de amor não me enche mais os olhos d’água. E os contos eu acho bonitos porque sempre apreciei a beleza na melancolia, já que eu a conheci bem antes de conhecer você. Vejo grandes histórias de amor como quem vê um lugar no qual já esteve muito tempo atrás e foi bom, e só sente na boca o gosto um pouquinho triste por aquele lugar não existir mais. Isso e a nota amarga do cigarro que acabei de fumar na janela. A instituição “nós” deixou de existir, e hoje em dia ouço as antigas músicas e penso em como éramos inocentes, mesmo você que de inocente nunca teve nada. Éramos crianças lidando com um amor de adulto – nosso amor já nasceu velho, de outras vidas e outros continentes. Era algo bonito de ver.
Sinto-me bem por saber que senti tanto, que vivi tanto, que vivíamos mesmo separados por milhas e milhas. O primeiro homem a me ver como uma mulher de verdade, a me desejar como se deseja uma mulher, a me amar como só um cafajeste ama quando encontra aquela que nasceu pra ser dele e ele nasceu pra ser dela. Como eu sei que fui sua e como eu sei que você era meu.
Não quero parecer nostálgica, mas a nostalgia é isso, deixar passar e relembrar. Não se incomode achando que penso em você hoje, pois eu penso em você de anos atrás. Quando deito no Arpoador vendo o sol morrer é em outros nomes, bocas e beijos que penso, quando sorrio no ônibus é imaginando um garoto de menos cabelo e sorriso mais largo. Mas quando ouço falar de amor de verdade, só consigo pensar nesses dois adolescentes descobrindo como crianças uma arte mais velha que o sol. Erramos tanto e de tantas formas, mas erramos por não saber acertar. E aprenderemos a acertar com outras pessoas, sentindo outros gostos e ouvindo outras risadas, ou talvez não vamos aprender nunca. Mas não importa, agora que nossa história é apenas mais uma história que quase ninguém se lembra mais.
Porque agora não me incomoda nem o fato de você não me incomodar mais. Talvez seja assim que as coisas aconteçam. A gente não amadurece, a gente endurece. Então deixa o Apocalipse vir de novo e a tempestade virar nosso barco. Deixa a música tocar. Que toque de novo, enquanto o tempo passa e esquecemos um do outro, uma última música em homenagem a um homem que eu não conheço mais.
Sozinho com todo mundo
June 25, 2009
“Flesh cover
the bone and the
flesh searches
for more than
flesh”
- Bukowski
Soube uma vez que fiz um cara querer ir pra cama comigo por recitar, bêbada, a poesia mais triste do Bukowski que conheço, num balcão sujo em Copacabana. Não era bem um cara, era um amigo, e soube porque só me contaram meses depois, mas até hoje não lembro de absolutamente nada.
Quer dizer, não foi uma amnésia alcoólica total, me lembro de recitar o poema e de não conseguir terminar de recitá-lo. Me lembro do banheiro sujo do bar, do balcão lotado e do meu amigo lá bebendo sozinho, me lembro de sentar num canto da calçada e de, depois, vomitar na beira da praia com ele me segurando. Mas não beijei ninguém naquela noite, não tenho a mais ligeira lembrança de ter chegado com os lábios mais próximos de algo que não fosse um copo de bebida naquele carnaval. Portanto, achava que só tinha feito uma cena patética de garota ébria. Nem imaginava as implicações. Read the rest of this entry »
A Primeira Lembrança Na Qual Você Não Está
June 18, 2009
Ele sussurrou no meu ouvido: quero você raspadinha sexta, vou te chupar muito, faz isso pra mim?
Sexta-feira seria nossa primeira noite a sós, com a madrugada toda pela frente. Esperávamos ansiosos pela oportunidade em que finalmente nos veríamos livres de obrigações, viagens, burocracias de check-in e check-out, tempo contado e agarração escondida em escadas e banheiros. Seria, por assim dizer, nossa primeira noite juntos de verdade. Respondi baixinho que estaria do jeito que ele quisesse.
Nunca haviam me pedido algo assim tão específico antes. Normalmente eu tinha casinhos, sexo casual com gente que eu não queria que passasse mais 15 minutos na cama comigo depois de gozar. No fundo eu os odiava, e odiava em parte a mim mesma por deixar que eles me satisfizessem com tão poucos e insuficientes momentos de prazer e migalhas de atenção. Eu não moveria um dedo – ou, neste caso, um pentelho – para dar a algum deles um pedido desses. Queriam me comer, pois que comessem. Do jeito que eu estava e sob as minhas condições. Read the rest of this entry »
Confissões de um quase herói
May 28, 2009
Mamãe e Papai sempre quiseram que eu fosse especial, justo, defensor de todos que precisassem de algum tipo de defesa. Eles mesmos davam aulas sobre ética em casa enquanto eu aprendia judô na escolinha, porque afinal alguém sempre se precisa de uma proteção contra os terríveis bandidos. Minhas festas de aniversário eram sempre com temas de super-heróis. Me davam gibis do Super-Homem e alugavam os filmes do Batman. Queriam que eu fizesse pelo menos uma boa ação por dia, e toda noite antes das histórias com moral que eu ouvia antes de dormir, eu tinha que contar a eles qual fora a boa ação de hoje. Do mesmo jeito que alguns pais consultam uma palavra por dia no dicionário e tornam aquela a “palavra do dia”. “Altruísmo: ajudar sem querer nada em troca”. “Bom: moralmente correto em suas atitudes”. “Coragem: falta de medo, audácia”. Essas interpelações noturnas só não eram completamente inúteis porque me faziam pensar e inventar coisas novas dia após dia – meu grande segredo era que, no fundo, eu estava é me lixando pra tudo isso. Quando crescesse, queria mesmo é ser arquiteto.
Um relógio de você
January 29, 2009
“Minhas verdades estão nas mentiras que eu conto e minhas mentiras estão nas verdades que eu invento.”
Alexander Sousa (SHIMN)
13:45, começo a ficar ansiosa. Parecendo um lêmure com os ouvidos atentos a cada ruído vindo do canto onde fica a porta, cada vez que ouço um som me viro rápida mas discreta, porque eu quero ver mas não quero que me vejam. Eu sei, você só chega as duas, mas quem sabe pode chegar mais cedo. Ou talvez um pouco mais tarde. E ainda tem a variável de você vir falar comigo quando chegar ou não. Talvez, se nós tivermos deixado um assunto importante interrompido ontem, você venha fazer algum comentário à guisa de boa tarde. Talvez você não ache o assunto assim tão importante. Afinal, nós sempre temos um assunto ou outro interrompido e que nunca lembramos de retomar. São só pedaços de conversas, nos pedaços de tempo que eu tenho você.
Meu dia é dividido em horários – nos seus horários. De 13:45 até 14:15, sua chegada. Exatamente as 17:00h, com uma margem de meia hora para mais ou para menos, é a hora em que você vem na minha mesa perguntar se eu estou com fome, se quero que você traga alguma coisa pra comer do seu lanche na rua.
“Quero, traz um beijinho.”
“E aonde é que eu vou achar alguém vendendo doce?”
Doce, ai. Read the rest of this entry »